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Archive for the ‘RELIGIÃO’ Category

“Os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.”

Posted by Liberdade Aqui! em 22/04/2012

Via Conteúdo Livre

Drauzio Varella – Intolerância religiosa

O fervor religioso é uma arma assustadora, disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso

SOU ATEU e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.
A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.

Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.

Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido.

Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.

Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.

Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?

Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?

Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?

O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades.

Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás.

Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.
O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade -quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.

Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.
Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.

Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.

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As origens do Totalitarismo moderno e das práticas de controle do pensamento no século II com a institucionalização da Igreja

Posted by Liberdade Aqui! em 03/04/2012

Via Portal Nassif

Religião e as origens do totalitarismo moderno

Enviado por luisnassif, ter, 03/04/2012 – Autor:  

O livro “The New Inquisitions” do professor da Michigan State University Arthur Versluis localiza as origens do Totalitarismo moderno e das práticas de controle do pensamento no século II com a institucionalização da Igreja Católica e o surgimento da ortodoxia que iria identificar heresias e hereges. As primeiras vítimas foram os gnósticos, herdeiros de uma anterior tradição religiosa pluralista. Se no passado os Impérios dominavam exclusivamente recursos naturais e escravos, a partir da Igreja Católica em II DC surge também a necessidade do controle do pensamento, aprimorado até chegar à Inquisição no século XII. Hoje não são mais necessárias câmaras de torturas já que a Internet e redes sociais tornaram os pensamentos mais acessíveis do que nunca.

A institucionalização da Igreja historicamente se fundamentou na ortodoxia que criaria figura do “herege” e a identificação das “heresias”. Mas antes do Cristianismo institucionalizado havia outro modelo bem diferente.

Olhando para o cristianismo oriental e, mais a leste, para as religiões da Índia, China e Tibet havia toda uma tradição muito mais pluralista: o Hinduísmo abrigava uma variedade de tradições (vedanta, védica, tântrica etc.); o pluralismo chinês onde budismo, taoismo e confucionismo conviviam lado a lado.

No Cristianismo primitivo havia também um modelo pluralista fundamentado nas antigas tradições da Ásia (Platonismo, Hermetismo, misticismo judaico etc.) que foi denominado “Gnosticismo” porque a sua unidade não era dada por uma forma externa – organização burocrática ou histórica – mas por um conhecimento interior, a “gnosis”.

Mas tudo mudou com a institucionalização da Igreja no século II DC: os padres da primeira Igreja como Tertuliano de Cartago pressentiram a necessidade de racionalizar os dogmas da religião através de termos como “ortodoxia” oposta da “heresia”. Pela primeira vez surge a necessidade do controle do pensamento por meio de uma forma de Poder. Além de conquistar terras, escravos e riquezas, pela primeira vez as estratégias políticas de dominação passaram a ter necessidade de reprimir por diversos instrumentos qualquer pensamento divergente da norma. Essa é a origem das modernas formas de Totalitarismo como o fascismo, nazismo até instrumentos contemporâneos da “nova inquisição” como as redes sociais na Internet e teorias conspiratórias como a “illuminatifobia”.

Essa é a tese fundamental do livro “The New Inquisitions: Heretic-Hunting and the Intellectual Origins of Modern Totalitarism” de Arthur Versluis, professor do Departamento de Estudos da Religião da Michigan State University. Reproduzimos abaixo uma ótima resenha de Miguel Conner (escritor norte-americano de sci fi e editor/apressentador do programa radiofônico “Aeon Bytes Gnostic Radio” – programa de debates e entrevistas semanais sobre temas do Gnosticismo, literatura e cultura pop) sobre o livro.

Conner vai destacar que os gnósticos (representantes de uma era de tradições religiosas mais pluralistas) foram os primeiros alvos dos dispositivos inquisicionais aprimorados durante séculos pela Igreja, cuja continuidade secularizada encontramos na pós-modernidade: “o inquisidor moderno não exige mais câmaras de tortura ou vizinhos delatores quando a Internet, mensagens eletrônicas, redes sociais e outros meios de comunicação fizeram os pensamentos do público mais acessível do que nunca.” Basta apenas que as ideias fascistas e de intolerância encontrem uma tradução política no Estado.

AS ORIGENS DO TOTALITARISMO E DO CONTROLE DE PENSAMENTO
Miguel Conner

A maioria das pessoas conhecem termos como ‘orwelliano’, ‘Politicamente Correto’, Patrulhamento Ideológico”ou ” Admirável Mundo Novo “, bem como os sistemas opressivos seculares e religiosos ao longo da história que os inspiraram. Apesar desses mecanismos que matam a individualidade serem construções relativamente modernas, não são apenas tão antigos quanto o Cristianismo, mas na verdade se originaram com o Cristianismo!

Mais surpreendente talvez seja saber que certas facções do cristianismo estão utilizando esses mecanismos até hoje. Em seu livro seminal, “The New Inquisitions”, Arthur Versluis, propõe que foi a caça à heresia promovida pelos pais da igreja primitiva que deu origem ao DNA que estruturou, muito mais tarde, as instituições totalitárias e o Estado policial. O desprezo cego destes bispos contra seus adversários teológicos, principalmente os gnósticos, acrescentou uma dimensão infernal às formas de controle sociais que poderiam ser aplicadas a seus súditos.

Antes do surgimento da figura do herege, impérios conquistaram quase que exclusivamente recursos naturais, escravos e prestígio, mas a maioria das nações subjugadas tinha a permissão de manter suas crenças nativas, costumes e ideologias. A perseguição religiosa dentro de um império geralmente surgia quando um sacerdote ou nobre – representantes na Terra de deuses específicos – iniciavam alguma forma de insurreição.

Os exemplos são numerosos: os egípcios pemitiram que os israelitas e outras raças escravizadas existissem livremente como cultura; os babilônios isolavam o clero judaico das massas em uma espécie de prisão em um clube de campo; e os romanos eram famosos pela liberdade religiosa, desde que tanto cidadãos quanto estrangeiros obedecessem às leis, pagassem impostos e jurassem a santa fidelidade ao Imperador. Recompensa ou punição era geralmente aplicada por causa do comportamento de um indivíduo ou grupo.

Tertuliano de Cartago: polemista
contra a heresia viu a necessidade
de racionalizar os dogmas cristãos

De acordo com Versluis, uma mudança sísmica ocorreu no século II DC, quando o Cristianismo começou a solidificar-se como uma religião organizada ao invés de múltiplas seitas independentes.

Padres da Igreja como Irineu de Lyon e Tertuliano de Cartago viram a necessidade de racionalizar os dogmas de sua religião a fim de ganhar respeitabilidade dentro do Império Romano. Dissidências ou especulações autônomas poderiam ameaçar a própria sobrevivência do cristianismo (pelo menos essa era sua razão de ser).

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Estaríamos voltando à Idade Média?

Posted by Liberdade Aqui! em 17/02/2012

Do Portal Sul 21

Neoconservadorismo religioso e ataques à cidadania laica

Muito mais importante do que pode parecer à primeira vista, a questão da utilização dos símbolos religiosos nos órgãos públicos merece atenção. Ela vem sendo alvo de acirrado debate nas páginas do Sul21 nos últimos dias. Respondendo a pedido de retirada destes símbolos, formulado pela Liga Brasileira de Lésbicas (LBL) e por outras cinco entidades, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, por despacho do seu ex-presidente, desembargador Leo Lima, antecipou-se aos demais poderes e negou a solicitação que fora encaminhada também à Câmara Municipal de Porto Alegre, à Assembleia Legislativa e ao Governo do Rio Grande do Sul.

Leia Mais:
– TJ-RS usou preâmbulo da Constituição para justificar uso de crucifixos
– “Discutir símbolos religiosos é mais importante do que parece”, diz desembargador

A base jurídica utilizada para justificar a negativa foi o preâmbulo da Constituição da República Federativa do Brasil, onde consta que o seu texto foi promulgado “sob a proteção de Deus”. Inconformada com a decisão, a LBL encaminhou pedido ao novo presidente do TJ-RS, desembargador Marcelo Bandeira Pereira, para que seja reconsiderada a decisão ou que a mesma seja remetida para apreciação do Órgão Especial do TJ-RS, também encarregado de deliberar sobre questões administrativas. Alega a representante da LBL que a referência ao preâmbulo constitui um “falso argumento jurídico”, pois o mesmo não faz parte da norma e, por este motivo, “não cria direitos ou deveres”, nem define o que é constitucional ou não.

De acordo com o parecer sobre o qual se firmou o ex-presidente do TR-RS para manter os crucifixos expostos naquele órgão público, “embora o laicismo seja uma das vias para a construção de um Estado Democrático de Direito”, como argumentam as entidades requerentes, “o verdadeiro sentido do ato [seria expressar] a ideia de conduta perenemente pautada pela religiosidade”. Justificar-se-ia nas “raízes predominantemente cristãs, que amoldaram a cultura deste país” e constituiria, ainda, “uma homenagem à religiosidade e aos valores a ela vinculados, forma geral, independente de qualquer orientação religiosa” (sic).

O flagrante centralismo cultural contido no argumento do parecerista, juiz Antonio Vinícius Amaro da Silveira, salta aos olhos. Não apenas ele entende que a Justiça ou, ao menos, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul se pauta pelos valores religiosos e cristãos, como os estende a toda a sociedade brasileira, à sua cultura e, ainda, torna esses valores e seu símbolo maior (o crucifixo) um símbolo universal, que expressaria a religiosidade em geral e que, portanto, incluiria todas as religiões. Fosse um simples parecer, ainda que contestável, ele não mereceria maior atenção. Como foi aceito pelo então presidente do TR-RS ele expõe contradição que está, ela sim, na raiz das instituições públicas brasileiras.

Fica evidente que, para boa parte dos magistrados brasileiros, a Justiça deva se pautar pela religiosidade e não, simplesmente, pela letra fria da Constituição Federal e pelo Direito. Orientam-se, com certeza, estes juízes e desembargadores, pela ideia de que a retidão de conduta decorre dos ensinamentos e dos preceitos religiosos cristãos, como se os homens, na condição de seres genéricos, só pudessem ser “bons” se orientados pela ideia e pelo temor ao Deus cristão. Sequer a ideia kantiana do imperativo categórico foi assimilada pelos que assim professam suas crenças e fazem tudo para impô-las aos demais cidadãos. A ideia de uma ética secular, em que as regras que orientam a ação individual devam ser tais que possam se tornar normas de conduta universais, formulada em 1785 (Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes), ainda não foi assimilada por estes aplicadores do Direito.

Mais importante e mais preocupante ainda se torna esta questão quando a imposição dos valores e da moral religiosa assume a dimensão que vem assumindo no Brasil hoje. Não apenas o TJ-RS reafirma que a Constituição e os valores do Estado laico devam se submeter às disposições cristãs, como os demais poderes públicos do Rio Grande do Sul se esgueiram e evitam enfrentar a questão da utilização dos símbolos religiosos cristãos nos órgãos públicos. A Câmara Municipal de Porto Alegre não deliberou até hoje sobre o requerimento que lhe foi entregue pela LBL e demais entidades em novembro de 2011. A presidência da Assembleia Legislativa e o governo do Estado do Rio Grande do Sul não sabem responder em que escaninho de suas burocracias se encontra (perdido/escondido?) os requerimentos de mesmo teor que lhes foram entregues em dezembro do mesmo ano.

No plano nacional, representantes de igrejas cristãs conservadoras vêm a público exigir explicações de ministros por suas manifestações de ordem política. Gilberto Carvalho, ministro chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, vem sendo duramente atacado por ter declarado durante o Fórum Mundial Temático, coincidentemente realizado em Porto Alegre no mês de janeiro último, que a nova classe média brasileira vem sendo ideologicamente conquistada pelas igrejas evangélicas e por sua moral conservadora e que cabe aos militantes progressistas entrar na disputa e reverter este quadro. Eleonora Menicucci, ministra recém empossada da Secretaria de Políticas para as Mulheres, vem sendo bombardeada com críticas por ter declarado que o aborto é uma questão de saúde pública, acima e independente das convicções religiosas.

Dilma Rousseff, que já foi emparedada pelos evangélicos conservadores durante a campanha eleitoral pela presidência da República, vem sendo constantemente constrangida a não adotar posturas e nem implementar políticas que possam se contrapor a convicções religiosas. Entendem os pastores religiosos e muitos cristãos, tal como fizeram o juiz parecerista e o desembargador ex-presidente do TJ-RS, que suas crenças são universais e que só elas podem redimir os homens e que, por este motivo, podem e devem ser estendidas a todos os indivíduos e a todas as instituições. As ideias do Estado laico e da ética secular não cabem em suas concepções de mundo. É oportuno lembrar que milhões já foram mortos, ao longo da história da humanidade, em defesa dos deuses únicos e de seus valores e na tentativa de sua imposição a toda a terra.

 

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Programa Rádio História da Rádio Milenium FM fala sobre o Programa Minha Casa, Minha Vida

Posted by Liberdade Aqui! em 04/01/2012

Do Youtube

Na última edição do ano do Programa Rádio História, na Milenium FM, o Prof. Val Batista (idealizador e apresentador do programa), fez um interessante relato histórico intertextual, abordando as crises pelas quais a humanidade passou e a crise atual. O programa está recheado de muitas informações e várias entrevistas com diversas personalidades. Abaixo você poderá ouvir o programa que foi ao ar no dia 27/12/2011:

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

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A intolerância religiosa cresce no Brasil

Posted by Liberdade Aqui! em 14/11/2011

Via Portal Nassif

Pelo direito de ser ateu

Enviado por luisnassif, seg, 14/11/2011 – Eduardo R.

Da Revista Época 

Caro Nassif, sugiro o seguinte tópico para esquentar a segunda-feira:

A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico. 

Texto interessante da jonalista Eliane Brum na Revista Época.

 

A parábola do taxista e a intolerância. Reflexão a partir de uma conversa no trânsito de São Paulo. A expansão da fé evangélica está mudando “o homem cordial”?

iálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada…”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões. 

– Você é evangélico? – ela perguntou.
– Sou! – ele respondeu, animado.
– De que igreja?
– Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
– Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
– Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
– Legal.
– De que religião você é?
– Eu não tenho religião. Sou ateia.
– Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
– Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
– Deus me livre!
– Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
– (riso nervoso).
– Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
– Por que as boas ações não salvam.
– Não?
– Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
– Mas eu não quero ser salva.
– Deus me livre!
– Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
– Acho que você é espírita.
– Não, já disse a você. Sou ateia.
– É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
– Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
– É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto…

O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)

Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:

– Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
– Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.

A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.

Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.

Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.

É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.

Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.

Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.

Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.

Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.

Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.

Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.

CAMPANHA PUBLICITÁRIA DA ATEA PARA AS PESSOAS REFLETIREM SOBRE RELIGIÃO E INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

(Eliane Brum escreve às segundas-feiras)

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Homofobia em pauta: ‘Acabar com a violência e a discriminação é interesse comum a cristãos e ativistas gays’

Posted by Liberdade Aqui! em 20/06/2011

Via Contexto Livre

Convivência pacífica – WILLIAM DOUGLAS

 Acabar com a violência e a discriminação é interesse comum a cristãos e ativistas gays. Por este motivo, é irracional a recíproca surdez entre ambos, que tanto falam em amor, mas não estão conseguindo dialogar. Ser intolerante e abusar do poder em que cada qual tem mais força é nonsense. 

Religiosos e ativistas disputam quem vencerá o outro. No Congresso, a maioria conservadora vem sistematicamente adiando a edição de leis que protejam os direitos dos casais homossexuais. Tolice. Embora a Bíblia diga que a homossexualidade é pecado, ela só obriga aos que decidem segui-la. Respeitar o homossexual é dever cristão e contingência da democracia. Vale lembrar que Jesus evitou o apedrejamento de uma pecadora. Em seguida, disse para que abandonasse o pecado, mas não deixou que fosse aviltada. Assim, falta aos cristãos entender que respeitar direitos e escolhas não significa compactuar com o que a Bíblia chama de pecado, mas sim seguir o exemplo de Cristo.

Do outro lado, os ativistas, onde têm maioria, agem com igual intolerância. Nesse passo, o exagero de quem preparou o chamado “kit gay” prestou um desserviço ao combate à homofobia, uma vez que o conteúdo choca e afronta a maioria da população. O kit, como estava, era uma invasão na forma que cada família tem de educar seus filhos. Impedir sua distribuição foi gesto de coragem de Dilma, respeitando os direitos humanos dos cristãos, judeus e muçulmanos no Brasil. Maiorias também têm direitos humanos.

O “kit gay” e a tentativa de criminalizar a fé afastam os religiosos moderados, afrontados com uma campanha teofóbica e heterofóbica. É uma tirania às avessas. Isso faz com que a maioria dos cristãos, de índole pda instauração de um terceiro turno da Constituinte”). Outro jurista respeitado, Ives Gandra, realça o risco de o STF legislar sobre o fato e menciona que a corte constitucional francesa não ousou decidir tais questões via Judiciário.

Para amparar direitos, basta regulamentar a união civil. Todavia, alguns ativistas querem mudar o conceito milenar de casamento, caro a 90% da população. Não é uma questão semântica, mas de imposição de conceitos à força e por capricho de mudança. Exagero — e o exagero só atrapalha.

Não aceito que existam guetos. Nem para os “bíblias”, nem para os gays. O país é de todos. Vamos abandonar a época em que se discute não a liberdade, mas quem terá o privilégio de exercer a tirania.

Sobre o assunto, o atual PLC 122 criminaliza a fé, tenta amordaçar os religiosos e, enquanto não corrigido e editado, serve a nazistas e skinheads. Nesse passo, os senadores Marcelo Crivella e Marta Suplicy vêm mostrando postura elogiável, buscando um substitutivo apropriado. O substitutivo ataca o problema, protege o direito de opinião e merece elogios de todos. Só vai desagradar aos “xiitas”. Como diz o senador Magno Malta, os cristãos não se opõem ao PLC 122 como um todo, mas apenas aos seus exageros.

Precisamos que o Congresso respeite os casais homossexuais e edite as leis que são de sua atribuição. Precisamos combater não somente a discriminação homofóbica, mas também a racial e a social. Precisamos que os moderados retomem o comando a fim de que a sociedade brasileira possa conviver em harmonia dentro de nossa diversidade. No caso do PLC 122 e do kit, Dilma, Crivella, Malta e Marta parecem estar — finalmente — conseguindo chamar a sociedade brasileira para sua mais louvável qualidade: a convivência pacífica e respeitosa.

WILLIAM DOUGLAS é juiz federal.

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CRISTO E TIRADENTES

Posted by Liberdade Aqui! em 20/04/2011

DO ESCREVINHADOR

Feriado em linha reta

 publicada quarta-feira, 20/04/2011 às 16:43 e atualizada quarta-feira, 20/04/2011 às 16:43

 por Izaías Almada

Cristo e Tiradentes. Crucificação e forca. O calendário brasileiro permite esse encontro que, na pior das hipóteses, junta ideais de fé e liberdade. O que eu não sei é se os brasileiros entendem o verdadeiro significado desses dois ideais.

Na verdade, é o feriadão. O feriadão de um milhão de carros para as praias e outro milhão para o interior. Muito bacalhau e pouca fé. Muita arrogância, impunidade e pouca liberdade. Aquela liberdade que interessa, pelo menos. Não aquela que os publicitários, esse mundo à parte, cheio de glamour e mentiras, cunhou como sendo a liberdade de poder usar uma calça jeans. Só mesmo na cabeça de um idiota.

Enquanto o povão que batalha de sol a sol merece o descanso e os supermercados e pedágios se locupletam um pouco mais, o mundo gira e a Lusitana roda.

Cristo e Tiradentes. Tiradentes e Cristo. Dois ícones. Duas imagens de homens magros, de olhar sereno e barbas e cabelos compridos. Como nos anos 60 para quem viveu a guerrilha e o ‘paz e amor’. Dois homens que não foram vis. Para os que vão viajar e os que vão ficar em suas cidades curtindo o feriadão, um pouco da poesia do grande Fernando Pessoa (Álvaro de Campos):

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza”.

UM BOM FERIADO A TODOS!

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A ciência não pode se tornar uma nova religião. Tem que dar a César o que é de César.

Posted by Liberdade Aqui! em 10/04/2011

VIA LUIS NASSIF

Ciência não pode virar religião, por Gleizer

Enviado por luisnassif, dom, 10/04/2011 – Por JB Costa

A ciência não pode se tornar uma nova religião. Tem que dar a César o que é de César.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1004201103.htm

Marcelo Gleiser

Contra as formas de dogmatismo

Dentro da sua validade, teorias funcionam bem; mas dizer que a ciência detém a verdade é demais

EM SEU ENSAIO “Absence of Mind”, a romancista e ensaísta americana Marilynne Robinson, que venceu o prêmio Pulitzer por seu romance “Gilead”, critica cientistas como Richard Dawkins e Steven Pinker por seus ataques à fé e à religião.
Robinson declara que a postura desses cientistas é essencialmente fundamentalista, baseada na doutrina do “cientismo”, que prega que a ciência é o único modelo explicativo válido. “As certezas que, juntas, trivializam e menosprezam, precisam ser revisitadas”, escreveu.

Eis, resumidamente, o argumento de Robinson: não há dúvida de que a ciência é uma belíssima construção intelectual, com inúmeros triunfos no decorrer dos últimos quatro séculos. Porém, sua visão de mundo é necessariamente incompleta.

Reduzir todo o conhecimento aos métodos da ciência acaba por empobrecer a humanidade. Precisamos de diversidade cultural, e essa diversidade inclui, entre outras, a cultura das religiões.

O que faz com que cientistas tenham tanta confiança no seu saber? Afinal, a prática da ciência apoia-se em incertezas; uma teoria funciona apenas dentro de seus limites de validade. Teorias são testadas constantemente e seus limites são expostos. É justamente dos limites de uma teoria que surgem outras..

Portanto, para que a ciência avance é necessário que ela falhe.

As verdades de hoje não serão as mesmas de amanhã. Veja, por exemplo, a noção de que a Terra é o centro do cosmo, plenamente aceita até o século 17. Claro, dentro de sua validade, teorias funcionam extremamente bem e, dessa forma mais restrita, podemos chamá-las de verdadeiras. Mas afirmar que a ciência detém a verdade é ir longe demais.

Escrevo não como uma crítica à ciência -isso seria contradizer a minha obra!-, mas como uma espécie de toque de despertar aos que pregam a ciência como dona da verdade. É necessário ter mais cuidado.

Robinson examina vários casos, expondo seus pontos fracos e os abusos da retórica científica. Porém, ela não é imune aos abusos de sua retórica. Por exemplo, ela critica a análise de Steven Pinker sobre o “Bom Selvagem”: “Será que é razoável argumentar contra o mito do Bom Selvagem baseando-se na cultura do século 20? O que nos parece primitivismo pode ser algo bem diferente. Não posso deixar que uma análise tão falha seja difundida”.

Em 2006, Robinson publicou uma resenha do livro de Dawkins, “Deus, um Delírio”, na qual critica o biólogo duramente. Robinson acusa Dawkins de usar argumentos científicos onde eles não são pertinentes. Por exemplo, quando Dawkins critica a ideia de que Deus é o criador do Universo, afirmando que a ideia não faz sentido: como o Universo começou simples, Deus não poderia ser complexo para conseguir criá-lo.

Dawkins conclui que Deus contradiz a teoria da evolução, pois já surge complexo. Robinson contra-ataca dizendo que aplicar teorias científicas a Deus não faz sentido. Mesmo sendo agnóstico, tenho de concordar com ela.

Muito da ciência e da religião vem da necessidade que temos de encontrar sentido e significado em nossas vidas. Simpatizo com a necessidade de humildade e autocrítica nas ciências defendida por Robinson. Espero, porém, a mesma atitude de líderes religiosos e teólogos.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro “Criação Imperfeita”

 

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O fanatismo religioso segue sendo o principal responsável pelas atrocidades cometidas no mundo.

Posted by Liberdade Aqui! em 03/04/2011

Via Portal Nassif

Fanatismo religioso, mal do mundo

Enviado por luisnassif, dom, 03/04/2011 – Por Nicolas Timoshenko

Correio do Povo – Porto Alegre – 03/04/2011

Fanatismo religioso, mal do mundo

Jurandir Soares

O fanatismo religioso segue sendo o principal responsável pelas atrocidades cometidas no mundo. Já foi assim com o 11 de setembro nos EUA e foi da mesma forma nesta sexta-feira no Afeganistão. Assim como também o foi a 20 de março, quando o pastor protestante Wayne Sapp queimou um exemplar do Corão em uma igreja da Flórida. Foi o ato radical do pastor americano que levou a massa ignara da cidade de Mazara-I-Sharif, no Afeganistão, a atacar a representação da ONU e matar oito funcionários da organização. Sendo dois decapitados, segundo as informações. Ato inconcebível. Os funcionários da ONU estão lá para tentar ajudar o país e acabam sendo agredidos de forma covarde. O episódio é a prova maior de que não há o mínimo controle por parte das forças de segurança. Dizia-se que o Afeganistão sob o domínio do Talibã vivia nas trevas. Percebe-se que não é preciso o nefasto regime estar no poder para a população mostrar que ainda vive na Idade Média.

No Iraque, onde a representação da ONU também foi para os ares, vitimando o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, não passa uma semana sem que aconteça um atentado que mata 40 ou 50 pessoas. Brigas entre xiitas e sunitas. Com as guerras nesses dois países – Iraque e Afeganistão -, os EUA já gastaram 1 trilhão de dólares. E o resultado é este que se vê. Vão ter que deixar aqueles países sem ter conseguido estruturar segurança para os governos aliados que deixam no poder. Ou melhor, deixam no cargo, porque o poder eles não detêm.

MUDANÇA NA LÍBIA

Os EUA tiraram o corpo fora e passaram para a responsabilidade da Otan o comando das ações na Líbia. Na prática, não muda muito, porque os comandos e os maiores contingentes da organização, tanto em termos bélicos quanto humanos, são americanos. Então, serão esses que continuarão a desenvolver as ações, só que, não em nome dos EUA, mas da Aliança Atlântica. Envolto na contradição de ser o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2009 e de ter autorizado uma nova guerra, o presidente Barack Obama foi à televisão para dizer que as forças americanas ajudaram a salvar vidas de civis do Leste da Líbia que iriam morrer em função dos ataques das forças de Kadhafi. É verdade, mas, em compensação, conforme denunciou a Igreja Católica em Trípoli, estão ajudando a matar os civis do Oeste, que são atacados pelas forças que são contra Kadhafi. Assim como também morrem civis nos bombardeios feitos contra aviões e tanques líbios. Embora o alvo seja militar, é muito difícil realizar um ataque sem efeito colateral.

Outro problema que desponta é saber quem irá governar a Líbia, após o afastamento de Kadhafi. Obama diz que os árabes devem seguir os exemplos de Brasil e Chile, que saíram de ditaduras para a democracia. A diferença é que brasileiros e chilenos já conheciam a democracia antes e trataram de reconquistá-la. Os árabes nunca conheceram democracia. A composição de seus países, de um modo geral, é feita por tribos ou facções religiosas, que costumam brigar entre si. Para manter a ordem, só um regime de força. Quando tentam impor democracia vira bagunça. Basta ver Iraque. Com a Líbia, possivelmente, não será diferente. Já há especulação de que as tribos vencedoras em Benghazi podem não ser aceitas pelas tribos de Trípoli. Conforme ressaltou o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, as intervenções estrangeiras só tendem a aumentar ainda mais as divisões internas dos países árabes. Assim é que a Líbia poderá ser mais um país que o Ocidente terá que ficar tutelando, como o Iraque e o Afeganistão, a um altíssimo custo, tanto em termos políticos e militares, quanto em vidas humanas.

PREOCUPAÇÃO EM ISRAEL

Israel está acompanhando de perto a crise na Síria e vê com apreensão uma possível queda do presidente Bashar Al-Assad. As autoridades israelenses temem que uma liderança mais conservadora assuma o poder, o que seria um risco para a segurança da fronteira no Norte de Israel. Os dois países, que já se enfrentaram três vezes, vivem uma espécie de guerra fria, já que a Síria mantém uma aliança com o Irã, e apoia o grupo Hezbollaz no Líbano. Da mesma forma, há grande preocupação com quem irá assumir o governo no Egito. Pois pode surgir um apoio maior para o grupo radical palestino Hamas. São as pedras do dominó do Oriente Médio que seguem balançando.

http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=116&Numero=185&Caderno=0&Editoria=112&Noticia=276089

 

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A igreja católica hoje tem necessidade urgente de ‘protestantes’

Posted by Liberdade Aqui! em 07/03/2011

Do Potal Adital

A igreja necessita hoje de uma reforma protestante

Eduardo Hoonaert, Padre casado, belga, com mais de 5O anos de Brasil, historiador e teólogo, mais de 20 livros publicados. Mora em Salvador. Dedica-se agora ao estudo das origens do cristianismo.

A igreja católica hoje tem necessidade urgente de ‘protestantes’, ou seja, de pessoas que – na linha de personalidades dos séculos XV-XVI como Hus, Wycliff, Lutero, Zwingli, Calvino, Karlstadt, Münzer, Erasmo e Morus – protestam contra a condução da igreja católica pelos seus mais altos representantes em Roma. Está na hora de se resgatar o genuíno espírito protestante, exemplarmente representado por Martinho Lutero. Teço aqui algumas considerações em torno de seu trabalho de reforma da igreja católica em seu tempo.

1. De início, Lutero pensava em aproveitar de uma viagem a Roma para alertar o papa diante dos abusos cometidos por pregadores de indulgências. Portanto, sua primeira intenção não era formar uma igreja separada de Roma, mas reformar a igreja existente. Mas ele se decepcionou. Os burocratas do Vaticano não queriam ouvir falar de eliminar ou mesmo diminuir os lucros provenientes da venda de indulgências. Lutero resolveu então passar por cima de Roma e ir direto ao cristianismo bíblico.

2. Ele se mete imediatamente a trabalhar. Ao longo de 14 anos empreende a tarefa gigantesca de traduzir a bíblia em língua alemã. Refugiado no castelo de um príncipe amigo, ele manda de vez em quando alguém à cidade a fim de anotar, na feira, palavras utilizadas por vendedores de produtos agrícolas e que, em sua opinião, são adequadas a traduzir em alemão as palavras que ele encontra em hebraico, grego ou latim nos textos bíblicos. Pois Deus tem de falar a língua do povo. A paixão de Lutero pela tradução da bíblia em língua alemã faz dele um dos principais formadores dessa língua, tal qual ainda é falada hoje. Esse árduo trabalho intelectual é a melhor resposta de Lutero aos que dizem que ele é sonhador, idealista, e que seu projeto não tem futuro. É como se ele argumentasse: ‘Eu não sonho, trabalho. Faço o que posso para mudar as coisas, por mínima que seja minha contribuição’. Eis o que ele entende por ‘viver da fé’ (o justo vive da fé). Como Abraão, o primeiro homem (pelo menos na tradição bíblica) a viver da fé, Lutero vive da convicção de que as coisas podem mudar.

3. O filósofo Ernst Bloch escreveu um livro (‘Thomas Münzer, um teólogo da revolução’, 1921) em que ele critica Lutero por não ter participado da guerra dos camponeses. Em sua opinião, foi uma lamentável omissão. Mas há uma frente de combate em que Lutero se meteu e que talvez escape à atenção do filósofo materialista: o combate em terreno religioso. Lutero combate de forma destemida uma opressão menos patente que a opressão econômica, mas que penetra mais fundo na alma humana, perpetuando-se por sucessivas gerações. É o combate contra o que o historiador Jean Delumeau chama de ‘pastoral do medo’. O clero introduz na alma do povo o medo do diabo, do inferno, da condenação eterna, do pecado, e assim conquista respeito e autoridade. Fortalecido pela leitura do evangelho, Lutero levanta-se contra essa prática perversa em seu texto ‘Do cativeiro babilônico da igreja’ (publicado no Brasil pela editora sinodal, São Leopoldo, 1982). No entender das pessoas comuns, a vida cristã consiste em assistir à missa e às novenas, rezar muito, mandar celebrar missas pelos defuntos, participar de romarias, tudo isso para salvar sua alma e as almas de entes queridos. Lutero escreve: são exatamente essas práticas, criadas e encorajadas pela igreja, que mantêm o povo num cativeiro ‘babilônico’, do qual Jesus vem nos libertar. O mesmo raciocínio está na base do opúsculo ‘Da liberdade do homem cristão’ (igualmente publicado pela editora sinodal de São Leopoldo). O homem cristão liberta-se de cultos e práticas devocionais que não levam a nada e passa corajosamente a ‘viver da fé’, ou seja, a fazer algo em benefício dos outros, aqui e agora.

4. Eis o espírito de Lutero. O que importa hoje é captá-lo e traduzi-lo em práticas adaptadas ao nosso tempo, sejam elas de cunho religioso ou não. Lutero pertence à humanidade, não pode ser privatizado por alguma igreja ou confissão religiosa. Sempre existe uma diferença entre a inspiração de um inovador e o modo como seus seguidores ou admiradores conseguem captar e viver sua mensagem. Há diferença entre Lutero e luteranismo assim como há diferença entre Calvino e calvinismo, Agostinho e agostianismo, Marx e marxismo e, principalmente, entre Cristo e cristianismo. A constatação já foi feita por Marcião, um mestre cristão particularmente lúcido do século II, que dizia que nem todos os apóstolos conseguiram captar o espírito de Jesus. Não basta conviver com alguém para captar sua inspiração profunda. É possível que pessoas fisicamente distantes de alguém particularmente iluminado captem melhor seu espírito que os que convivem com ele. É o que aconteceu com os familiares de Jesus e os vizinhos da aldeia de Nazaré: não captaram seu espírito, como testemunha o evangelho de Marcos.

5. A cena do século XVI repete-se atualmente em Roma. Os(as) que trabalham pela reforma da igreja católica são considerados(as) ‘personae non gratae’. Reina um espírito de prepotência, fechamento e mesmo cinismo, como afirmou recentemente o escritor Saramago. Todos e todas que ousam apresentar uma sugestão que não é do agrado das autoridades do Vaticano sentem isso na pele. Como nos tempos de Lutero, necessitamos atualmente de uma reforma protestante a sacudir a igreja católica pela força do espírito evangélico. Temos de protestar, fazer ouvir nossa discordância dos desmandos praticados pelo papa e pelas autoridades do Vaticano.

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