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LÍNGUAS

Entrevista do Mestre Antonio Candido à Brasil de Fato

Posted by Liberdade Aqui! em 13/07/2011

Via Blog Da Maria Frô

Antonio Candido: “O socialismo é uma doutrina triunfante”

“O socialismo é uma doutrina triunfante”

Por: Joana Tavares, da Redação Brasil de Fato
12/07/ 2011
Aos 93 anos, Antonio Candido explica a sua concepção de socialismo, fala sobre literatura e revela não se interessar por novas obras

Crítico literário, professor, sociólogo, militante. Um adjetivo sozinho não consegue definir a importância de Antonio Candido para o Brasil. Considerado um dos principais intelectuais do país, ele mantém a postura socialista, a cordialidade, a elegância, o senso de humor, o otimismo. Antes de começar nossa entrevista, ele diz que viveu praticamente todo o conturbado século 20. E participou ativamente dele, escrevendo, debatendo, indo a manifestações, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de alunos, militantes sociais, leitores e escritores.

Tão bom de prosa como de escrita, ele fala sobre seu método de análise literária, dos livros de que gosta, da sua infância, do começo da sua militância, da televisão, do MST, da sua crença profunda no socialismo como uma doutrina triunfante. “O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele”, afirma.

Brasil de Fato – Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?

Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?

Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.

Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?

Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.

O que é mais importante ler na literatura brasileira?

Machado de Assis. Ele é um escritor completo.

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“A ideologia dominante é a ideologia da classe dominante.”

Posted by Liberdade Aqui! em 09/07/2011

Do Terra Magazine

Ideologia dominante


Getty Images

A escola contribui fortemente para reproduzir a sociedade a que serve

“A escola contribui fortemente para reproduzir a sociedade a que serve”

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Uma das teses mais clássicas do marxismo sobre ideologia tem forma de slogan: a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. Os estudiosos do funcionamento da sociedade que adotam teses marxistas (não surgiu nada melhor para explicar nosso dia a dia, seja o da TV, seja o dos mercados) conferem um lugar especial às ideologias, embora seu postulado fundamental seja o de que são as relações econômicas que comandam a história, em última instância. Para que as engrenagens econômicas funcionem, é preciso que os cidadãos acreditem que elas são as que devem ser (nada como ler Delfim Neto para convencer-se de que os economistas são ideólogos, não cientistas).

Bourdieu e Passeron produziram obra notável, na década de 70 (A reprodução), cuja tese é que a escola contribui fortemente para reproduzir a sociedade a que serve. Faz isso reproduzindo sua ideologia. Invariavelmente a escola “prova” que os mais pobres são também os mais incapazes. Como ela faz isso? Analisando o desempenho escolar a partir de critérios (de saberes) de classe, desigualmente distribuídos.

Dou um exemplo banalíssimo, e antigo: no livro didático do meu segundo ano de escola, no interior de Santa Catarina, em uma comunidade totalmente rural, líamos uma narrativa chamada “Férias na roça”. Meninos da cidade iam a uma fazenda para apreciar a natureza e sentir o cheiro acre dos estábulos. Ora, cheiro acre dos estábulos!! Nem vou mencionar os textos que falam (falavam) da família: o pai provia o sustento, a mãe cuidava do lar e os dois filhos, um menino e uma menina (nesta ordem), brincavam e estudavam. A empregada, sempre negra, fazia o serviço pesado e umas comidinhas especiais. Tudo parecia natural.

A mesma coisa acontece com o ensino de português: a língua dos menos favorecidos (!!) é considerada errada. E nem se deve falar dela na escola, segundo os “sábios”. Imagine “defendê-la”! Só na universidade é que se pode saber a “fala popular” segue regras. O povo não pode saber disso! Nem outros intelectuais! Só os linguistas! Para o povo, ditados bobos, que provam que não sabe nada. Soletrando neles! Um dos argumentos que frequentaram algumas páginas que discutiram o livro do MEC era que o próprio povo quer aprender língua padrão, o português correto. Qualquer pesquisa mostraria isso, dizia-se. Supostamente, só os linguistas quereriam “ensinar errado”.

Não adiantou dizer-lhes que nenhum linguista defende esta tese (e eles acham que sabem ler!). Parece ser mesmo verdade que “o povo” quer aprender a falar e escrever corretamente. Por quê? Pelas mesmas razões que o levam a querer comer melhor, vestir-se melhor, morar melhor, viajar mais, comprar computador e TV de tela plana. E, eventualmente, a votar contra a reforma agrária e pelo endurecimento da política de segurança. É a ideologia da classe dominante incutida na classe dominada. Parece tão antigo! Mas é tão verdadeiro! Só saiu de moda. Até porque muitos mudaram de lado.

Quando os ricos são defendidos pelos pobres, conseguiram sua maior façanha: convencê-los de que eles não são apenas ricos; também são os únicos que estão certos! Em relação a tudo: da ortografia à quantidade de mata que pode eliminar.

O ensino de língua é ideológico, sim senhor.

Escrevo isso para esclarecer de novo aos que inalaram o marxismo em bares que a discordância dos ataques ao tal livro do MEC não configura esquerdismo.

Uma analogia

No Caderno Ilustríssima (que nome!), da Folha de S.Paulo de domingo, dia 26/06, Joel Rufino dos Santos conta uma história que hoje parece engraçada. Estava preso, em 1965, suspeito de subversão. Um dia, foi tirado da cela para ter seu cabelo cortado (cabeludos não eram bem vistos!). O barbeiro quis saber do tenente que tomava conta de Rufino o que ele tinha feito. O militar lhe disse que Rufino tinha sido convencido por um general comunista a reescrever a história do Brasil. “Como assim?”, perguntou o barbeiro. “Eles escreveram, por exemplo, que Pedro Álvares Cabral era viado!” respondeu o tenente.

Assim que li o parágrafo, pensei: “Imaginem se um Fulano como esse tenente decide explicar a um barbeiro cético o que professores de português e estão escrevendo nos livros do MEC”. Talvez o castigo não ficasse no corte de cabelos, como não ficou para muitos, naqueles tempos. Houve censores que quiseram prender Sófocles, outros que queriam saber do paradeiro de Immanuel Kant. Qualquer livro de capa vermelha era suspeito, mesmo que tratasse de culinária.

O obscurantismo é de doer.

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Desinformação e desrespeito na mídia brasileira « Nossa Língua Brasileira (NLB)

Posted by Liberdade Aqui! em 29/05/2011

Via Portal Nassif

O manifesto das professoras de português

Enviado por luisnassif, dom, 29/05/2011

Desinformação e desrespeito na mídia brasileira « Nossa Língua Brasileira (NLB)

 

Desinformação e desrespeito na mídia brasileira

Por alguma razão escondida dentro de cada um de nós que escrevemos esse texto tivemos como escolha profissional o ensino de língua (materna ou estrangeira). Por algum motivo desconhecido, resolvemos abraçar uma das profissões mais mal pagas do nosso país. Não quisemos nos tornar médicos, advogados ou jornalistas. Quisemos virar professores. E para fazê-lo, tivemos que estudar.

Estudar, para alguém que quer ensinar, tem uma dimensão profunda. Foi estudando que abandonamos muitas visões simplistas do mundo e muito dos nossos preconceitos.

Durante anos debatemos a condição da educação no Brasil; cotidianamente aprofundamo-nos sobre a realidade do país e sobre uma das expressões culturais mais íntimas de seus habitantes: a sua língua. Em várias dessas discussões utilizamos reportagens, notícias, ou fatos trazidos pelos jornais.

Crescemos ouvindo que jovem não lê jornal e que a cada dia o brasileiro lê menos. A julgar por nosso cotidiano, isso não é verdade. Tanto é que muitos de nós, já indignados com o tratamento dado pelo Jornal Nacional à questão do material Por uma vida melhor, perdemos o domingo ao, pela manhã, lermos as palavras de um dos mais respeitados jornalistas do país criticando, na Folha de S. Paulo, a valorização dada pelo material ao ensino das diferentes possibilidades do falar brasileiro. E ficamos ainda mais indignados durante a semana com tantas reportagens e artigos de opinião cheios de ideias equivocadas, ofensivas, violentas e irresponsáveis. Lemos textos assim também no Estado de São Paulo e nas revistas semanais Veja IstoÉ.

Vimos o Jornal Nacional colocar uma das autoras do material em posição humilhante de ter que se justificar por ter conseguido fazer uma transposição didática de um assunto já debatido há tempos pelos grandes nomes da Linguística do país – nossos mestres, aliás. O jornalista Clovis Rossi afirmou que a língua que ele julga correta é uma “evolução para que as pessoas pudessem se comunicar de uma maneira que umas entendam perfeitamente as outras” e que os professores têm o baixo salário justificado por “preguiça de ensinar”. Uma semana depois, vimos Amauri Segalla e Bruna Cavalcanti narrarem um drama em que um aluno teria aprendido uma construção errada de sua língua, e afirmarem que o material “vai condenar esses jovens a uma escuridão cultural sem precedentes“. Também esses dois últimos jornalistas tentam negar a voz

contrária aos seus julgamentos, dizendo que pouquíssimos foram os que se manifestaram, e que as ideias expressas no material podem ter sucesso somente entre alguns professores “mais moderninhos”. Já no Estado de São Paulo vimos um economista fazendo represálias brutas a esse material didático. Acreditamos que o senhor Sardenberg entenda muito sobre jornalismo e economia, porém fica nítida a fragilidade de suas concepções sobre ensino da língua. A mesma desinformação e irresponsabilidade revelou o cineasta Arnaldo Jabor, em seu violento comentário na rádio CBN.

Ficamos todos perplexos pela falta de informação desses jornalistas, pela inversão de realidade a que procederam, e, sobretudo, pelo preconceito que despejaram sem pudor sobre seus espectadores, ouvintes e leitores, alimentando uma visão reduzida ao senso comum equivocado quanto ao ensino da língua. A versão trazida pelos jornais sobre a defesa do “erro” em livros didáticos, e mais especificamente no livro Por uma vida melhor, é uma ofensa a todo trabalho desenvolvido pelos linguistas e educadores de nosso país no que diz respeito ao ensino de Língua Portuguesa.

A pergunta inquietante que tivemos foi: será que esses jornalistas ao menos se deram o trabalho de ler ou meramente consultar o referido livro didático antes de tornar públicas tão caluniosas opiniões? Sabemos que não. Pois, se o tivessem feito, veriam que tal livro de forma alguma defende o ato de falar “errado”, mas sim busca desmistificar a noção de erro, substituindo-a pela de adequação/inadequação. Isso porque, a Linguística, bem como qualquer outra ciência humana, não pode admitir a superioridade de uma expressão cultural sobre outra. Ao dizer que a população com baixo grau de escolaridade fala “errado”, o que está-se dizendo é que a expressão cultural da maior parte da população brasileira é errada, ou inferior à das classes dominantes. Isso não pode ser concebido, nem publicado deliberadamente como foi nos meios de comunicação. É esse ensinamento básico que o material propõe, didaticamente, aos alunos que participam da Educação de Jovens e Adultos. Mais apropriado, impossível. Paulo Freire ficaria orgulhoso. Os jornalistas, porém, condenam.

Sabemos que os veículos de comunicação possuem uma influência poderosa sobre a visão de mundo das pessoas, atuam como formadores de opinião, por isso consideramos um retrocesso estigmatizar certos usos da língua e, com isso, o trabalho de profissionais que, todos os dias, estão em sala de aula tentando ir além do que a mera repetição dos exercícios gramaticais mecânicos, chamando atenção para o caráter multifacetado e plural do português brasileiro e sua relação intrínseca com os mais diversos contextos sociais.

A preocupação dos senhores jornalistas, porém, ainda é comum. Na base de suas críticas aparecem, sobretudo, o medo da escola não cumprir com seu papel de ensinar a norma culta aos falantes. Entretanto, se tivessem lido o referido material, esse medo teria facilmente se esvaído. Como todo linguista contemporâneo, os autores deixam claro, na página 12, que “Como a linguagem possibilita acesso a muitas situações sociais, a escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes, para que eles tenham mais uma variedade à sua disposição, a fim de empregá-la quando for necessário“. Dessa forma, sem deixar de valorizar a norma escrita culta – necessária para atuar nas esferas profissional e cultural, e logo, determinante para a ascensão econômica e social de seus usuários, embora não suficiente – o material consegue promover o debate sobre a diversidade linguística brasileira. Esse feito, do ponto de vista de todos que produzimos e utilizamos materiais didáticos, é fundamental.

Sobre os conteúdos errôneos que foram publicados pelos jornais e revistas, foi possível ver que, após uma semana, as respostas dadas pelos educadores, estudiosos da linguagem e, sobretudo, da variação linguística, já foram bastante elucidativas para informar esses profissionais do jornalismo. Infelizmente alguns jornalistas não os leram. Mas ainda dá tempo de aprender com esses textos. Leiam as respostas de linguistas tais como Luis Carlos Cagliari, Marcos Bagno, Carlos Alberto Faraco, Sírio Possenti, e de educadores tais como Maria Alice Setubal e Maurício Ernica, entre outros, publicadas em diversas fontes, como elucidativas e representativas do que temos a dizer. Aliás, muito nos orgulha a paciência desses autores – foram verdadeiras aulas para alunos que parecem ter que começar do zero. Admirável foram essas respostas calmas, respeitosas e informativas, verdadeiras lições de Linguística, de Educação – e de atitude cidadã, diga-se de passagem – para “formadores de opinião” que, sem o domínio do assunto, resolveram palpitar, julgar e até incriminar práticas e as ideias solidamente construídas em pesquisas científicas sobre a língua ao longo de toda a vida acadêmica de vários intelectuais brasileiros respeitados, ideias essas que começam, aos poucos, a chegar à realidade das escolas.

Ao final de anos de luta para podermos virar professores, ao invés de vermos nossos pensadores, acadêmicos, e professores valorizados, vimos a humilhação violenta que eles sofreram. Vimos, com isso, a humilhação que a academia e que os estudos sérios e profundos podem sofrer pela mídia desavisada (ou maldosa). O poder da mídia foi assustador. Para os alunos mais dispersos, algumas concepções que levaram anos para serem construídas foram quebradas em instantes. Felizmente, esses são poucos. Para grande parte de nossos colegas estudantes de Letras o que aconteceu foi um descontentamento geral e uma descrença coletiva nos meios de comunicação.

A descrença na profissão de professor, que era a mais provável de ocorrer após tamanha violência e irresponsabilidade da mídia, essa não aconteceu – somente por conta daquele nosso motivo interno ao qual nos referimos antes. Nossa crença de que a educação é a solução de muitos problemas – como esse, por exemplo – e que é uma das profissões mais satisfatórias do mundo continua firme. Sabemos que vamos receber baixos salários, que nossa rotina será mais complicada do que a de muitos outros profissionais, e de todas as outras dificuldades que todos sabem que um professor enfrenta. O que não sabíamos é que não tínhamos o apoio da mídia, e que, pior que isso, ela se voltaria contra nós, dizendo que o baixo salário está justificado, e que não podemos reclamar porque não cumprimos nosso dever direito.

Gostaríamos de deixar claro que não, ensinar gramática tradicional não é difícil. Não temos preguiça disso. Facilmente podemos ler a respeito da questão da colocação pronominal, passar na lousa como os pronomes devem ser usados e dizer para o aluno que está errado dizer “me dá uma borracha”. Isso é muito simples de fazer. Tão simples que os senhores jornalistas, que não são professores, já corrigiram o material Por uma vida melhor sobre a questão do plural dos substantivos. Não precisa ser professor para fazer isso. Dizer o que está errado, aliás, é o que muitos fazem de melhor.

Difícil, sabemos, é ter professores formados para conseguir promover, simultaneamente, o debate e o ensino do uso dos diversos recursos linguísticos e expressivos do português brasileiro que sejam adequados às diferentes situações de comunicação e próprios dos inúmeros gêneros do discurso orais e escritos que utilizamos. Esse professor deve ter muito conhecimento sobre a linguagem e sobre a língua, nas suas dimensões linguísticas, textuais e discursivas, sobre o povo que a usa, sobre as diferentes regiões do nosso país, e sobre as relações intrínsecas entre linguagem e cultura.

Esse professor deve ter a cabeça aberta o suficiente para saber que nenhuma forma de usar a língua é “superior” a outra, mas que há situações que exigem uma aproximação maior da norma culta e outras em que isso não é necessário; que o “correto” não é falar apenas como paulistas e cariocas, usando o globês; que nenhum aluno pode sair da escola achando que fala “melhor” que outro, mas sim ciente da necessidade de escolher a forma mais adequada de usar a língua conforme exige a situação e, é claro, com o domínio da norma culta para as ocasiões em que ela é requerida. Esse professor tem que ter noções sobre identidade e alteridade, tem que valorizar o outro, a diferença, e respeitar o que conhece e o que não conhece.

Também esse professor tem que ter muito orgulho de ser brasileiro: é ele que vai dizer ao garoto, ao ensinar o uso adequado da língua nas situações formais e públicas de comunicação, que não é porque a mãe desse garoto não usa esse tipo de variedade lingüística, a norma culta, não conjuga os verbos, nem usa o plural de acordo com uma gramática pautada no português europeu, que ela é ignorante ou não sabe pensar. Ele vai dizer ao garoto que ele não precisa se envergonhar de sua mãe só porque aprendeu outras formas de usar o português na escola, e ela não. Ele vai ensinar o garoto a valorizar os falares regionais, e ser orgulhoso de sua família, de sua cultura, de sua região de origem, de seu país e das diferenças que existem dentro dele e, ao mesmo tempo, a ampliar, pelo domínio da norma culta, as suas possibilidades de participação na sociedade e na cultura letrada. O Brasil precisa justamente desse professor que esses jornalistas tanto incriminaram.

Formar um professor com esse potencial é o que fazem muitos dos intelectuais que foram ofendidos. Para eles, pedimos que esses jornalistas se desculpem. E os agradeçam. E, sobretudo, antes de os julgarem novamente, leiam suas publicações. Ironicamente, pedimos para a mídia se informar.

Nós somos a primeira turma a entrar no mercado de trabalho após esse triste ocorrido da imprensa. Somos muito conscientes da luta que temos pela frente e das possibilidades de mudança que nosso trabalho promove. Para isso, estudamos e trabalhamos duro durante anos. A nós, pedimos também que se desculpem. E esperamos que um dia possam nos agradecer.

Reafirmamos a necessidade de os veículos de comunicação respeitarem os nossos objetos de estudo e trabalho — a linguagem e o língua portuguesa usada no Brasil —, pois muitos estudantes e profissionais de outras áreas podem não perceber tamanha desinformação e manipulação irresponsável de informação, e podem vir a reproduzir tais concepções simplistas e equivocadas sobre a realidade da língua em uso, fomentando com isso preconceitos difíceis de serem extintos.

Sabemos que sozinhos os professores não mudam o mundo. Como disse a Professora Amanda Gurgel, em audiência pública no Rio Grande do Norte, não podemos salvar o país apenas com um giz e uma lousa. Precisamos de ajuda. Uma das maiores ajudas com as quais contamos é a dos jornalistas. Pedimos que procurem conhecer as teorias atuais da Educação, do ensino de língua portuguesa e da prática que vem sendo proposta cotidianamente no Brasil. Pedimos que leiam muito, informem-se. Visitem escolas públicas e particulares antes de se proporem a emitir opinião sobre o que deve ser feito lá. Promovam acima de tudo o debate de ideias e não procedam à condenação sumária de autores e obras que mal leram. Critiquem as assessorias internacionais que são contratadas reiteradamente. Incentivem o profissional da educação. E nunca mais tratem os professores como trataram dessa vez. O poder de vocês é muito grande – a responsabilidade para usá-lo deve ser também.

Alecsandro Diniz Garcia, Ana Amália Alves da Silva, Ana Lúcia Ferreira Alves, Anderson Mizael, Jeferson Cipriano de Araújo, Laerte Centini Neto, Larissa Arrais, Larissa C. Martins, Laura Baggio, Lívia Oyagi, Lucas Grosso, Maria Laura Gándara Junqueira Parreira, Maria Vitória Paula Munhoz, Nathalia Melati, Nayara Moreira Santos, Sabrina Alvarenga de Souza e Yuki Agari Jorgensen Ramos – formandos 2011 em Letras da PUC-SP, futuros professores de Língua Portuguesa e Língua Inglesa.

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Bendito livro…

Posted by Liberdade Aqui! em 22/05/2011

Por Miguel do Rosário, em seu blog

O livro “maldito”

“Não tenho sabença,
pois nunca estudei,
apenas eu sei
o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho,
vivia sem cobre
e o fio do pobre
não pode estudá”
(Patativa do Assaré)

Li o capítulo do livro amaldiçoado pela mídia e por todos que tropeçaram na pegadinha.

Merval Pereira afirma hoje em sua coluna que o livro irá prejudicar a produtividade da economia brasileira!

Esse escândalo, obviamente, tem o objetivo de horrorizar setores da classe média, que até hoje se recuperam do trauma de ter um presidente da república que não falava segundo a “norma culta” da língua.

É interessante como há segmentos da sociedade vulneráveis ao discurso da mídia. A procuradora federal Janice Ascari, provocada pelos jornalistas do Globo, interpretou o fato não como algo que merecia ser debatido pela sociedade e pelos especialistas (o livro foi indicado e aprovado por uma comissão de notáveis acadêmicos), mas como um caso de polícia! E ameaçou acionar o Ministério Público! Mereceu, como era de se esperar, uma grande homenagem do pasquim kamelista, uma foto gigante na página 3, em seu melhor ângulo fotogênico.

Ora, o que Janice Ascari entende de pedagogia, linguística, ensino de português? Com que poder ela vem ameaçar uma comissão de acadêmicos que estuda o tema há décadas, uma autora que foi professora da rede estadual por mais tempo que ela tem de vida, e um ministério cujos funcionários estudam o assunto sistematicamente, frequentando periodicamente seminários aqui e no exterior?

O livro não ensina o adolescente a falar errado! Ao contrário, é uma abordagem inteligente para mostrar ao estudante que a língua que aprendeu de seus pais pobres, e que foi a única que ouviu em toda parte antes de entrar na escola, não é para se jogar no lixo. É uma língua viva, popular, mas que também tem regras. Com isso, evita-se que o estudante despreze o seu próprio patrimônio linguístico. No Nordeste, temos centenas de poetas de grande talento que produzem literatura de incrível beleza usando a vertente “popular” da língua. É “errado” o que eles fazem? A poesia de Patativa do Assaré e de Luiz Gonzaga estão cheias de desvios da norma culta. Estão “erradas”?

O escândalo da mídia nada mais é do que explorar o preconceito da classe média, emergente ou tradicional, em relação à sintaxe popular.

Leiam o livro! Ele não ensina o estudante a falar errado. Ele não contemporiza. Trata-se simplesmente de uma interpretação carinhosa, pedagógica, acerca do uso popular da fala. É importantíssimo fazer isso!

Saliente-se que os livros didáticos de português há anos, desde o tempo de FHC, tem capítulos dedicados à fala popular, mais ou menos nos mesmos termos. Não se trata, portanto, de uma nova ideologia do “governo do PT”, como sugerem neo-sabichões que dão a tudo um viés partidário.

Só agora, por um oportunismo barato (com fins políticos), a mídia resolveu escandalizar.

O professor precisa dar uma explicação ao jovem porque o povo fala de um jeito “diferente”, e seria uma péssima didática se ele se restringisse a dizer que o povo fala “errado”. Não é isso que aprendemos na faculdade de letras, quando aprendemos linguística! Na faculdade, aprendemos justamente isso, que não existe o falar “errado”. Aliás, em linguística se vai ainda mais longe: afirma-se que sequer há uma gramática “certa” ou “errada”, e sim uma gramática “normativa”, ou seja, voltada para o aprendizado da língua escrita. Se um estudante universitário, que em tese já superou eventuais traumas decorrentes do uso, por seus pais e amigos, de uso de um português “popular”, “não-culto”, aprende que não existe falar “errado”, porque cargas d’água seria certo traumatizar o adolescente dizendo a ele que tudo que ele aprendeu de seus pais e ambiente é “errado”?

Na verdade, existe sim um falar “errado” em linguística. É a fala que não atinge seu objetivo, que não consegue se fazer entender, não consegue estabelecer a comunicação. Esse é único erro, o erro fundamental, de uma fala: não se comunicar, confundir.

Repito, leiam o livro e confiram. Não se ensina a falar errado. Apenas se procura incorporar, ao ensino do português, o uso popular da língua. É uma maneira inteligente de interessar o jovem, de atingir positivamente a sua auto-estima.

O livro mostra que mesmo o uso “popular” da língua segue regras sintáticas similares à da norma culta. Em geral, o uso popular simplifica a língua. “Os peixe”, por exemplo. A norma culta comete a redundância de repetir o plural. A norma popular entende que basta apontar o plural no artigo. Essa é a evolução da língua.

Naturalmente, temos aqui uma luta constante entre as tradições, cujos interesses são representados por instituições como a Academia Brasileira de Letras, e a evolução do idioma, que não pára. O objetivo do livro, e de todos os linguistas, não é soltar as rédeas do ensino da língua. É importante que tenhamos máxima uniformidade linguística. Que haja um ensino rigoroso do português normativo. Que todos os brasileiros dominem o português com máxima perfeição.

A evolução da língua acontece ao longo dos séculos, temperada no fogo desta luta entra a tradição e a força popular.

Para ensinar um jovem a falar o português culto, porém, em primeiro lugar temos que lhes mostrar que a língua segue uma lógica. As normas sintáticas têm uma lógica. O livro mostra que mesmo o português “popular” falado nas ruas também pode ser sistematizado sintaticamente. E que ele não é exatamente “errado”. Ele é, sim, inadequado. O livro enfatiza a necessidade de usarmos a norma culta para nos dirigirmos a uma autoridade, como, por exemplo, numa entrevista de emprego. Isso é o suficiente para dar a entender ao jovem, com a delicadeza que o tema merece, que ele tem de aprender a falar de forma o mais culta possível, para que suas chances profissionais sejam as maiores possíveis!

Ao mesmo tempo, o livro mostra ao estudante que ele não deve deixar de respeitar e estimar seus pais apenas porque estes usam o português de forma “não culta”, além de sinalizar que ele (o estudante) não deve sair por aí corrigindo, esnobando e depreciando as pessoas que não usam a norma culta da língua. Muitas vezes, um parente mais velho do aluno, um avô ou avó, detêm conhecimentos morais que serão muito importantes para o desenvolvimento da personalidade daquele adolescente. Ele não deverá desprezá-los apenas porque o avô não usa a norma “culta” da língua. Se o professor souber aplicar eficazmente o que ensina o livro em questão, o aluno compreenderá que seus parentes usam uma “vertente” popular da língua, mas que isso não invalida a legimitidade de seu discuso e de seus ensinamentos. Ao mesmo tempo, o aluno entenderá que precisa aprender a norma culta para arranjar um bom emprego e para ascencer socialmente. Está tudo ali no livro, muito bem explicadinho.

Claro que o livro não é perfeito. Os especialistas já encontraram erros até na obra de Cervantes. A autora pode modificar alguma coisa na edição do ano que vem. Ou não. O que é injusto é dizer que o livro ensina o jovem a falar errado, ou então afirmar, como fez Janice Ascari (que eu tantas vezes chamei brincando de “heroína” da blogosfera, mas que também, como qualquer um de nós, é sujeita a erros) que se trata de “um crime contra nossos jovens”. Crime, a meu ver, é desrespeitar a classe científica que estuda o assunto, e que aprovou esse livro, e tratar o tema como um caso de polícia e não como um tema importante a ser debatido, tranquila e democraticamente, pela sociedade brasileira!

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Combatendo toda a forma de preconceito

Posted by Liberdade Aqui! em 19/05/2011

Do Conversa Afiada

Haddad: “Mudou a cara da universidade.” Que horror !

Haddad na entrevista: preconceito, não !

O Ministro da Educação, Fernando Haddad, mandou os pobres para a escola e, por isso, desde o governo do Nunca Dantes, se submete a um linchamento diário do PiG.

Vá ao Blog do Planalto e acompanhe uma entrevista esclarecedora que ele deu:

“Continuaremos a política de combate a qualquer forma de preconceito na escola”


O ministro da Educação, Fernando Haddad, defendeu nesta quinta-feira (19), durante o programa “Bom Dia, Ministro”, a política do governo federal de combate à homofobia e a qualquer forma de preconceito nas instituições de ensino. O MEC pretende estimular a formação de professores, numa primeira etapa, utilizando materiais pedagógicos anti-homofobia. “A educação é para todos”, afirmou Haddad, destacando que os estabelecimentos de ensino devem estar preparados para receber estudantes num ambiente que possibilite o desenvolvimento e o aprendizado.


“Continuaremos a política de combate a qualquer forma de preconceito na escola”, destacou.


Durante o programa, produzido pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), Haddad respondeu a pergunta de radialista sobre o livro “Por uma Vida Melhor”, distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens e Adultos, cuja abordagem metodológica valoriza a linguagem coloquial e a norma culta. O ministro da Educação rebateu críticas de que a obra ensinaria a falar errado.


“É um equívoco o que estão dizendo do livro: que ensina a falar a errado. O livro parte de uma situação de fala, mas induz o estudante a se apropriar da norma culta”, disse Haddad.


Para exemplificar, citou a linguagem criada pelos jovens para se comunicar pela internet, adequada para o ambiente virtual, mas que se diferencia da norma culta da língua. O livro aborda situações de linguagem coloquial, mas estimula o estudante, com exercícios, a traduzir o “português falado” para a norma culta, que deve ser utilizada para a escrita em provas, por exemplo. “Os críticos, infelizmente, não leram o livro”.


Enem – O ministro da Educação também falou sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que tornou-se o principal meio de acesso ao ensino superior no país. Haddad defendeu a realização de dois exames por ano, oferecendo uma segunda chance para os estudantes que pretendem ingressar no ensino superior.


“Limitar a avaliação a um final de semana durante o ano não parece muito adequado do ponto de vista educacional”.


O MEC divulgou que as provas do Enem 2011 deverão ocorrer nos dias 22 e 23 de outubro e as inscrições entre os meses de julho e agosto. O exame dá acesso ao Prouni, programa de bolsas de estudos em instituições privadas de ensino e ao Fies, programa de financiamento estudantil que agora não requer mais fiador. O ministro aconselhou os candidatos a consultarem provas anteriores e a matriz de conteúdos, disponíveis no site do Inep, responsável pelo exame.


Nos últimos oito anos, destacou Haddad, o número de vagas de acesso gratuito no ensino superior quadriplicou. E o governo federal continua investindo na expansão de vagas.


“A democratização do acesso ao ensino superior é uma realidade. Todas as classes sociais têm jovens na universidade. Mudou a cara da universidade”.


Pronatec – O ministro falou ainda sobre o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e ao Emprego (Pronatec), que vai ampliar a oferta de vagas na educação profissional brasileira, combatendo o desemprego e formando profissionais qualificados para o mercado de trabalho brasileiro. Para o ministro, a região Nordeste, que vive um momento de crescimento da economia, será particularmente beneficiada pelo programa, preparando os jovens para a nova realidade da região.


Enquanto a lei não é aprovada, o MEC está mapeando a oferta de vagas em todas as escolas técnicas do país. O trabalho deve estar concluído, segundo o ministro, até julho. Além de formar profissionais, o programa pretende combater o desemprego, qualificando trabalhadores, em especial os com mais de 40 anos.


“O programa [Pronatec] tem dois tipos de bolsas. Uma para o aluno do ensino médio e outra para a qualificação de trabalhadores, sobretudo beneficiários do seguro-desemprego”.


Piso do magistério – Respondendo a pergunta de radialista sobre a greve de professores em Santa Catarina, o ministro Haddad citou a criação do piso nacional do magistério como uma das principais conquistas.


“Os professores brasileiros ganham 60% do que ganham os demais profissionais de nível superior. Se queremos qualidade do ensino, temos que valorizar os professores.”


Para Haddad, o piso é constitucional, é lei e, portanto, deve ser cumprida. Se há dificuldade por parte dos estados, diz o ministro, “que se faça um acordo, estabelecendo um cronograma sério, dentro da realidade orçamentária do estado”.


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A ignorância da grande imprensa chega a ser burrice quando o assunto é língua

Posted by Liberdade Aqui! em 18/05/2011

Do Vi o mundo

Marcos Bagno: Discussão sobre livro didático só revela ignorância da grande imprensa

Na semana passada, o site IG noticiou que o Ministério da Educação comprou e distribuiu, para 4.236 mil escolas públicas, um livro que “ensina o aluno a falar errado”. Os jornalistas Jorge Felix e Tales Faria –  do Blog Poder On Line, hospedado no portal – se basearam em exemplos de um capítulo do livro Por Uma Vida Melhor para afirmar que, segundo os autores da coleção organizada pela ONG Ação Educativa, não há nenhum problema em se falar “nós pega o peixe” ou “os menino pega o peixe”. Calçaram sua tese no seguinte trecho de um capítulo que diferencia o uso da língua culta e da falada:”Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar os livro?”. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”. O fato de haver outros capítulos, no mesmo livro, que propõem a leitura e discussão de obras de autores como Cervantes, Machado de Assis e Clarice Lispector e ensina modos de leitura, produção e revisão de textos não foi citado. Mas a discussão sobre como registrar as diferenças entre o discurso oral e o escrito esquentou, principalmente após o colunista da Folha de S. Paulo Clóvis Rossi vociferar, no último domingo, que tal livro é “criminoso”.

por Marcos Bagno, no seu site, via CartaCapital

Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.

Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia páginae saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos doque eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentementeconvencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).

Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.

Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana.

Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro,om a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.

Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro doconjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.

A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.

Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).

Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa nãosignifica automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los aomundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.

Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).

O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em quea defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?

Marcos Bagno é escritor, tradutor, lingüista, professor da Universidade de Brasília  (UnB).

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A má-fé midiática nas questões linguísticas

Posted by Liberdade Aqui! em 15/05/2011

Do Portal Nassif

Vige, na mídia, a ignorância linguística

Enviado por luisnassif, dom, 15/05/2011 – Por Weden

O caso da condenação do livro didático (col. Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, de Heloísa Ramos et alii) pelo populismo midiático não é expressão somente de tomada de partido numa suposta querela entre linguistas e gramáticos. 

Para esclarecer, chamo de “populismo jornalístico” o hábito próprio a alguns veículos e jornalistas de se acreditarem “justiceiros do povo”, autorizando-se a cometerem assassinatos de reputação, a partir de condenações precipitadas sem base legal e/ou científica.

O caso é, sim, a expressão da ignorância linguística em sua versão mais perigosa: a de defesa consciente do preconceito.

Reverberada, acriticamente, por diversos veículos impressos, meios eletrônicos, e mídias de rede – entre portais, e blogs agressivos e leigos – a condenação ao livro, aos autores e ao próprio MEC, partiu de uma leitura pouco atenta e informada do texto da obra, chegando à prática perversa da boataria de difamação.

No Brasil, lidamos com a resistência de uma “prática tradicional e normativa” em ceder, na escola,  espaço para a ciência. O que é gravíssimo.

Entre todas as disciplinas escolares com base científica (biologia, física, matemática, história etc.), os estudos de língua materna são os mais atrasados no país. Contribui para isso o fato de que a base científica destes estudos constantemente é alvo de ataques não somente de normativistas, como também e muitas vezes de personagens da mídia. Isso quando não se confundem.

À linguística, cabe trazer conhecimentos sobre a língua.

A gramática não é científica e não tem condições de trazer conhecimentos sobre a língua. Ela traz apenas normas, ou “etiquetas”, como já designou o linguista Sírio Possenti.

Ora, não se pode esperar de especialistas em etiqueta social que tragam esclarecimentos sobre fenômenos antropológicos. Seria como esperar um debate sério entre Glória Kalil e Clifford Geertz.

Emparelhar gramática e linguística numa mesma discussão sobre a língua é tão absurdo quanto  construir críticas a “teorias antropológicas” a partir de “dicas de etiqueta social”.

A gramática deve cumprir seu papel: informar os alunos sobre “aquilo que é norma gramatical”. Só isso. Nada a dizer sobre a língua em sua complexidade. Mas a gramática é parte (com alguma importância) e não o todo do saber sobre a língua.

Assim como antropólogos costumam dar algum valor à etiqueta social quando estão em jantares ou apresentações acadêmicas, mas sabem que a cultura não é somente isso; linguistas não desprezam a gramática, mas sua função, entre tantas outras, é alertar que a língua também não é somente isso.

Tudo bem: há quem acredite que indígenas são mal educados por andarem seminus. Mas não podemos levar estes juízos a sério.

O que linguistas tentam esclarecer à sociedade, com base em estudos científicos, aliás, bastante antigos, é que a língua é maior que uma lista de “acertos/erros”. Ela é um sistema complexo, atravessado pela história, e por práticas extremamente complexas no corpo social.

Em pleno século XXI, o que alguns gramáticos e alguma mídia tentam dizer é que a língua não é um sistema complexo, não é atravessada pela história, e não é múltipla e maior que regras gramaticais. Convicções do século XVII, diga-se de passagem. Ou, de forma análoga,  é como se tentassem convencer-nos de que indígenas são “mal educados” por andarem seminus, condenando e difamando os antropólogos por não concordarem com esta estupidez.

Em síntese: o que os autores do livro fizeram foi alertar aos alunos que o modo como  alguns deles falam não é “incorreto linguisticamente”, mas apenas “não autorizado gramaticalmente”, pois que não existe propriamente língua portuguesa (francesa, espanhola, alemã etc.) certa ou errada.

O que a mídia está fazendo neste momento, em contrapartida, é defender “ardentemente” o preconceito – ato tão grave quanto alguém defender o racismo e o sexismo em nome de “normas de etiqueta”.

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O QUE É ISSO?

Posted by Liberdade Aqui! em 27/04/2011

VIA CONTEÚDO LIVRE

MARTHA MEDEIROS – Outros estrangeirismos

Gosto muito do que voçê escreve. Se não for encômodo, poderia ler o meu blog?

Estou anciosa para ler seu novo livro.

Essas três primeiras frases são exemplos de manifestações carinhosas que recebo diariamente e que muito me comovem, mas, se você reparar bem, vai ver que elas trazem alguns “estrangeirismos” à língua portuguesa, com os quais, aliás, o governo não se importa tanto.

Você escrito com cedilha. Encômodo em vez de incômodo. Anciosa em vez de ansiosa. Equívocos campeões de audiência. Existe também na linguagem escrita uma farta distribuição de palavras como previlégio, viajem, recompença, análize, sem contar os clássicos mendingo, menas, imbigo.

Quando se trata da palavra falada, é comum ouvir “trusse” em vez de trouxe, “eu soo” em vez de “eu suo”, sem falar no descaso absoluto com os plurais: vou com quatro amigo, ela me deve cinco real, almocei dois pastel.

Serão todos analfabetos? De forma alguma. São profissionais liberais, estudantes de faculdade e, olha, alguns se apresentam até como professores. Erram porque todo mundo erra, assim como eu também cometo meus erros. Não esses, nem tantos, mas cometo. Recentemente passei pelo vexame de escrever “doentis” em vez de “doentios”. O português é uma língua que convida à derrapagem.

Só há uma maneira de barrar o uso disseminado desses estrangeirismos no nosso idioma: incentivando cada vez mais o hábito da leitura, investindo maciçamente nas escolas e inaugurando uma biblioteca pública em cada esquina.

Se não for assim, os pais continuarão falando errado em casa e darão maus exemplos aos seus filhos, que por sua vez passarão adiante atrocidades como “para mim fazer” ou “vou estar fechando a loja”, e o português continuará sendo infestado de expressões que, essas sim, comprometem a integridade do nosso idioma.

Eu sou contra qualquer patrulha, mas se querem instaurar uma, que seja pela preservação do bom português, em vez de perderem tempo com uma caça às bruxas improdutiva. A absorção de palavras estrangeiras é algo natural em qualquer cultura, não há motivo para organizar uma resistência.

Claro que há certos exageros, principalmente no jargão empresarial, mas isso é questão de gosto: na minha opinião, de mau gosto. Me parece mais elegante apresentar um orçamento do que um budget, fazer uma reunião do que fazer um meeting e apresentar um relatório em vez de um paper, mas há quem se sinta um profissional mais competente falando assim. Afetação, só isso. De forma alguma coloca em risco nossa língua mãe.

Utilizar palavras em inglês, vez que outra, é apenas uma rendição ao que se consagrou como universal. Não mata ninguém. E não deixa de ser didático, afinal, o turismo tem aumentado no mundo e é bom que se saibam algumas palavras-chaves. De minha parte, acho preferível fazer um happy hour do que ter uma hora felis com os amigos, fazer um check in no aeroporto do que uma xecagem, executar downloads do que baichar músicas. O uso eventual do inglês (ou do francês, do italiano, do latim) não compromete em nada o nosso idioma. O português mal falado e mal escrito é que nos faz passar vergonha.

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O tempo e as lembranças

Posted by Liberdade Aqui! em 06/04/2011

Por Esther PS Rosado

Tudo muda, eis a grande lição do tempo; e o que nos fazia chorar todas as lágrimas , de repente nos seca e não é mais vertente.

Mudam todas as coisas, cenários e paisagens, seres, coisas e criaturas. Não sei nem onde li, acho que é Machado, mas o tempo põe-nos esquecimentos e cabelos brancos… Verdade ou mentira?

Até os livros, tímidos e enfileirados nas estantes, envelhecem. Neles, eis que subitamente as folhas amarelecem… mas a velhice nos livros, sei lá por que, lhes confere uma dignidade sem nome, talvez porque eles guardem a doçura e a ansiedade de muitas e tantas mãos que os tiveram.

Os livros são uma espécie de testemunha do tempo, ali quietos, sem gritos aparentes, guardam em si o mundo que as criaturas escreveram, ousaram, quiseram , de qualquer forma, colorir e reinventar.

Tudo muda, a cor das casas depois da chuva, das estações, dos anos. Mudam os nossos afetos mais profundos, guardados também lá dentro do nosso peito, no silêncio das nossas vidas, na esperança dos nossos sonhos.

E porque tudo muda, eis que a lembrança é sempre mais bonita.

Lembro-me de paisagens , criaturas, ambientes.

Nitidamente, lembro-me de criaturas, sobretudo de seus olhos e sons de palavras.

Algumas , incompletas, e, talvez, por isso mesmo, tão bonitas.

Determinados cabelos ou cor de olhos me impressionam sobremaneira, anos se passarão antes que eu possa perdê-los de vista. Determinadas expressões me ficam na memória, impressas em ferro e sangue, em fogo e dor.

Cheiros e perfumes delicados também jamais me sairão da mente. Lugares e pessoas têm cheiros peculiares, aprendi durante a vida.

Tive uma professora de quem jamais me esqueci: cheirava banho recém-tomado, perfume delicado e suave, roupa passada a ferro, limpeza, sabonete. Quando debruçava-se sobre mim e meu caderno, ah, o mundo era todo cheiros inesquecíveis, havia uma tontura em mim que meus sábios sete anos adoravam experimentar todos os dias.

Guardo também, das criaturas que amei, o jeito das mãos. E quanta gente guardo lá dentro de mim! Mãos grandes e quadradas, mãos quentes, mãos pequenas e mentirosas, mãos de dedos curtos , simuladoras; mãos de dedos longos, perfeitos, prontos para o teclado .

Guardo também alegrias, como a de Fabiana, minha querida, tirando da caixa o violino novo, depois encostando o queixo a ele, e depois empunhando o arco, fechando os olhos, fechando, e o arco , uma doçura magnífica, infinita da seda em contato com as cordas…

Fotografei para nunca esquecer… não poderia esquecer este momento jamais…

Há muitos outros momentos que jamais me esquecerei, que são lembranças tão solenes que me doem: ter ouvido pela primeira vez o choro de minha neta Júlia, estar a ouvir a Sinfonia 40 de Mozart ou Djorak com sua Sinfonia n. 9 ( Sinfonia do Novo Mundo).

Sinto-me como um castor, guardando coisas.

Esperanças, restos, jeitos, sons, delicadezas e certos tons da amargura, por que não?

Guardo paisagens, jardins, um campo de trigo , um punhado de nuvens no céu. Penso sempre que me são importantes todas as coisas que vi: um ipê coberto de flores amarelas, pedras na encosta da montanha, o sol nascendo, a lua cheia, um beija-flor estabanado, os olhos verdes de meu filho mais novo. Guardo a temperatura da pele de minha filha única, Ana: distância nenhuma me subtrai o seu amor, minha filha…

Especialmente guardo na lembrança o rosto de meus filhos quando pequenos, os cheiros que eles tinham, tão bom! Guardo o jeito solene de minha mãe, e minha memória guarda ainda os cheiros do quintal da minha infância.

Por isso, porque tudo pude sentir e tudo ver, não guardo a acidez de certas almas. Por elas somente é que morreream em mim, graças aos deuses, certas lembranças.

E me lembrando da esperança, sei que o tempo me livrou daquilo que macieza de algodão não foi.

E por ter acendido uma lâmpada dentro de mim, posso hoje iluminar minha alma.

Sem tristeza, só para poder abrir a porta para certas lembranças.

Abrir para que possam ir embora de mim, amém.

Publicado originalmente em Nave da Palavra Edição nº74 – 15/02/02

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Danilo Gentili: É tranqüilizador saber que é um humorista

Posted by Liberdade Aqui! em 14/02/2011

Do Terra Magazine

Humor e (in)sensibilidade

 

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Por razões que não importam muito, estou relendo polêmicas sobre piadas e charges que circularam no ano passado. Não vou analisar aqui este material (que será a base de comunicação em congresso). Vou apenas comentar uma leitura que Danilo Gentili fez de Bergson, num texto em que se defendia de críticas a um tuíte, que muitos consideraram racista (comentei o caso em uma coluna, aqui mesmo, em 2009). Em sua resposta, Gentili cita e comenta frases de dois pensadores do humor. Seguem-se os dois parágrafos de sua “resenha”:

Henri Bergson, filósofo francês, afirmou que “não há comicidade fora daquilo que é propriamente humano. Comicidade dirige-se à inteligência pura”. Filosoficamente, o pessoal do TSE não é humano, nem inteligente o bastante para compreender o que foi escrito há quase um século atrás.

Freud, pai da psicanálise, entendeu que “rir estrondosamente, satirizar personagens e acontecimentos fazem parte da nossa experiência cotidiana e é crucial pra nossa condição humana”. Um século depois, temos uma lei que impede a manifestação do cômico num evento tão importante pra sociedade como a eleição. Psicossocialmente falando, a democracia brasileira encontra-se retardada.

As interpretações são suspeitas. Não se pode dizer, a partir de Freud, que a repressão ao humor é sinal de atraso de uma democracia. A constatação de Freud de que o humor faz parte do cotidiano tem a ver com suas teses segundo as quais o humor (em especial, o chiste) resulta da repressão, que é parte da civilização. O humor é um jeito de contornar a repressão. É um prazer vicário.

Sua leitura de Bergson também é incorreta. As teses de Bergson são três: a) não há comicidade fora daquilo que é propriamente humano (p. 2); b) a comicidade se dirige à inteligência pura (p. 4); (corolário de “a insensibilidade que ordinariamente acompanha o riso”, p. 3); c) a inteligência que produz o riso deve estar em contato com outras inteligências (p. 4).

Gentili interpreta o princípio segundo o qual o riso se dirige à inteligência pura como se significasse que os que não aceitam (não gostam, não suportam, criticam, censuram etc.) textos humorísticos fossem desumanos ou pouco inteligentes. Mas não é esse o sentido do texto de Bergson.

Quando Bergson afirma que só rimos do que é humano quer dizer que não rimos de animais, de objetos etc. Se rimos de um chapéu, não rimos de um pedaço de feltro, mas da forma que os homens lhe deram (p. 3). E quando diz que a comicidade se dirige à inteligência pura quer dizer que a comicidade não ocorre se houver algum sentimento envolvido, que prevaleça sobre a inteligência. “Inteligência pura” não quer dizer ‘em alto grau’, sendo seu oposto a burrice. Quer dizer ‘sozinha, desacompanhada de sentimentos’. O humor requer falta de sensibilidade.

A tese de Bergson pode facilmente ser entendida considerando o próprio “caso” no qual Gentili se envolveu. Seu texto foi lido como se associasse negros a chimpanzés (sabemos que, em piadas racistas, esse tópico é dos mais comuns).

Qual é o sentimento ou a emoção que poderia atrapalhar a comicidade? Qualquer forma de sensibilidade, qualquer sentimento que levasse o piadista a não fazer uma piada humilhante. O que Bergson diz é que os sentimentos (os bons sentimentos) impedem o riso, a comicidade, o humor. Não diz que quem não gosta de humor, de certos casos de humor, é burro. A conclusão deveria ser que quem não gosta de certas piadas privilegia seus “sentimentos” em vez de sua inteligência.

Se alguém recalca o “bom” sentimento, se prefere a boa sacada que gera uma piada, esse alguém é dos que perdem o amigo para não perder a piada. Aliás, esta conhecida frase poderia substituir a de Bergson: o humor depende de alguém preferir a piada ao amigo. Se ele preferir o amigo, a piada se perde.

Tem-se dito à exaustão que o “politicamente correto” prejudica o humor. É outra versão da tese de Bergson. Se o humorista não quiser “trabalhar” a partir dos preconceitos (gênero, etnia, países, profissões etc.) e dos estereótipos, que abandone a profissão, vá militar numa ONG. É uma opção muito digna, mas, um humorista diria, totalmente sem graça. É que, em muitos casos, a graça vive do rebaixamento, da humilhação, seja grosseira, seja elegante e perspicaz.

Em casos como o das piadas racistas, a tese de Bergson é muito clara: sufoca-se o “bom” sentimento. Mas ela não é tão clara em relação a outros temas. Considere-se a piada sobre ciência comentada na coluna da semana passada. Fazer piadas sobre grupos de cientistas dando a entender que eles juntam qualquer coisa com qualquer coisa para fazer um projeto é preferir um texto “inteligente” (mesmo que errado ou exagerado) a um texto “respeitoso” em relação à ciência.

Foi interessante saber que Danilo Gentili lê Freud e Bergson, se é que leu mesmo, porque estão disponíveis tanto dicionários de citações quanto coleções de frases fora do contexto na internet; sua citação de Bergson, um pedaço daqui, outro de lá, torna suspeita a hipótese de que ele tenha lido O riso.

É tranqüilizador saber que é um humorista.

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

 

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