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“Num Brasil onde o espaço dos mais pobres já não se restringe mais à cozinha da Casa Grande…”

Posted by Liberdade Aqui! em 23/08/2011

DA AGÊNCIA CARTA MAIOR

DEBATE ABERTO

A paternidade do Bolsa Família e a orfandade da velha classe média

Enquanto representantes da oposição seguem clamando para si o DNA original do Bolsa Família, que seria o programa Bolsa Escola de Fernando Henrique Cardoso, uma parcela não desprezível do eleitorado demo-tucano vê o programa como uma espécie de “Bolsa Esmola”. O que explica esse paradoxo?

Wagner Iglecias

Nesta quinta-feira o governador Geraldo Alckmin, de São Paulo, foi o anfitrião de um encontro entre a presidenta Dilma Roussef e os governadores da região Sudeste. O mote da reunião foi a unificação do Bolsa Família com o programa Renda Cidadã, do governo paulista, e o lançamento do programa “Brasil sem Miséria”. Segundo notícias veiculadas pela imprensa, o discurso elogioso que Alckmin dirigiu a Dilma na ocasião teria surpreendido setores da oposição, que continuam apostando nas denúncias de corrupção como forma de desgastar o governo federal.

Especula-se que o governador paulista vislumbre numa trilha própria de relacionamento com Brasília melhores perspectivas eleitorais para 2012 e 2014 do que no alinhamento automático com outras lideranças de oposição, hoje em confronto aberto com o Palácio do Planalto.

Mas para além da construção do xadrez eleitoral que se aproxima, na visão de alguns de seus correligionários Alckmin teria deixado passar no encontro desta quinta-feira a oportunidade de ressaltar que a paternidade dos programas sociais que conferiram tanto êxito a Lula seria, na verdade, tucana, porque iniciados durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso. E nesse ponto mostra-se uma característica paradoxal na oposição: enquanto seus representantes clamam para si o DNA original do Bolsa Família, que seria o programa Bolsa Escola de Fernando Henrique, parcela não desprezível do eleitorado demo-tucano vê o programa como uma espécie de “Bolsa Esmola”. Parece claro que determinados setores da sociedade, em especial aqueles que historicamente rejeitaram o petismo, têm ressalvas em relação aos programas de transferência de renda.

A grosso modo talvez pudéssemos dizer que, assim como parcela do petismo demorou a entender ou aceitar a importância da estabilização da moeda, parcela do eleitorado mais a direita tem demorado bastante a entender ou aceitar a importância social e econômica dos programas de transferência de renda. Parte do eleitorado de oposição, em especial o de classe média (a antiga, não a nova), morador do centro-sul do país e atuante no setor privado, torce o nariz para tais políticas. É gente que se sente preterida pelo Estado e se acha sustentando o país, tanto pelo trabalho duro que exerce na iniciativa privada quanto pelo pagamento de impostos, os quais seriam drenados pelo Estado para “sustentar os mais pobres” e alimentar a “farra dos políticos de Brasília”.

A questão é tão controversa que na última eleição presidencial a oposição chegou a apresentar a proposta de concessão de uma espécie de “13º salário” para os beneficiários do Bolsa Família, causando certa perplexidade em segmentos de seu eleitorado cativo. E mais recentemente um senador paranaense oposicionista declarou em programa de entrevistas de abrangência nacional que o Bolsa Família “não tira ninguém da miséria” e “estimula a preguiça”. Provavelmente a fala do senador expresse, para além de sua visão pessoal, aparentemente em dissonância com os líderes de seu partido, sempre tão ciosos em lembrar a paternidade do Bolsa Família, aquilo que pensa parte do eleitorado oposicionista.

Uma boa rodada de pesquisas seria necessária para discorrermos com mais acurácia sobre o que pensam estas parcelas do eleitorado, mas a experiência cotidiana mostra que há gente que manifesta certas reservas diante deste novo Brasil dos trinta e tantos milhões de pobres que ascenderam aos estratos médios da pirâmide sócio-econômica. Para além dos “impostos altíssimos”, do “mar de lama de Brasília” e do fato de termos tido um presidente da república que não fez sua trajetória nos bancos escolares, esses setores sentem no dia a dia mudanças que afetam o modo como algumas coisas sempre funcionaram em nosso país. Um destes exemplos é o aumento do custo dos serviços pessoais, e mesmo o surgimento dos primeiros indícios de que alguns destes serviços estão escasseando entre nós.

Hoje em dia, na onda do politicamente correto, não pega lá muito bem sair dizendo certas coisas, mas de vez em quando se ouve aqui e ali um muxoxo na linha do “hoje em dia aeroporto parece rodoviária”, “ninguém mais quer ser pedreiro nesse país”, “esse pessoal não quer mais se sujeitar a ganhar salário mínimo” etc. Paradoxal também que muitas vezes os setores que expressam esse saudosismo de um tempo em que a maioria não participava do mercado de consumo, a não ser na condição de mão-de-obra quase gratuita, são os mesmos que, quando em viagens aos países desenvolvidos veem com muitos bons olhos o tamanho da expressiva classe média que aquelas sociedades construíram.

Sentindo-se muitas vezes injustiçados pela estrutura tributária e enojados diante das vísceras do mundo político expostas diuturnamente por certa mídia, talvez estes segmentos da velha classe média já não sejam eleitoralmente tão numerosos, e provavelmente já não consigam mais, como no passado, influenciar seus empregados e prestadores de serviços hoje cada vez mais incorporados à tal “nova classe média” para pensar desta ou daquela forma. Num Brasil onde o espaço dos mais pobres já não se restringe mais à cozinha da Casa Grande talvez o que possa arrebatar certos segmentos da velha classe média, que às vezes parecem votar na oposição por simples falta de alternativas, seja uma nova liderança política, com um discurso sem titubeios e marcadamente de direita. A ver.

 

(*) Wagner Iglecias é doutor em Sociologia pela FFLCH-USP e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

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