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O fim da letra cursiva. Será?

Posted by Liberdade Aqui! em 31/07/2011

Via Conteúdo Livre

Querem acabar com a letra de mão! – HUMBERTO WERNECK

Como se não lhe bastasse tanta novidade ruim, dona Alzira tem agora um novo motivo de preocupação. Essa gente não sossega? – diz ela, revoltada com a perpétua inventação de moda em que se tornou a nossa vida. Já reparou que novidade boa não tem mais? Agora, essa notícia de que em alguns países vão parar de ensinar escrita de mão. Vai ser tudo no computador. O tal de e-mail.

Ah, faz tempo que virou essa loucura! Quando olha para trás, dona Alzira tem a impressão de que nasceu na Idade Média. Mas não essa de que as freiras falavam mal no colégio, pintada como Idade das Trevas. Que trevas que nada! Devia ser bem boa aquela vida. Pois se até ela ainda experimentou um pouco do gostinho! Na sua juventude não tinha e-mail, as moças aprendiam francês, bordado e piano. Para não falar das boas maneiras, hoje em extinção.

Repare: as moças deram para se parecer com os rapazes. Fumam. Bebem. Falam alto. Dizem palavrão. Frequentam academia de ginástica, na maior promiscuidade com a rapaziada suada e seminua. Tomam iniciativas – nas festas, nem esperam, recatadamente, que alguém venha tirá-las para dançar. Só falta, Deus me perdoe, esgravatarem em público as intimidades, que nem os homens. Ou será que a esta altura já não falta mais?

Qualquer tempo passado foi melhor. O pai de Dona Alzira, homem culto e refinado (mas 100% másculo), gostava de declamar este verso de um poeta espanhol. Ela concorda: qualquer tempo passado foi melhor, ah, foi. Tinha os ensinamentos dos pais para as grandes e pequenas coisas da vida. “Não mata a barata não, filha”, ralhou um dia a sábia dona Masé quando a viu, menininha, de chinela em punho. “Mulher não mata barata – mulher sobe na cadeira e grita, e aí vem um homem e mata.”

Mas a realidade é às vezes tão cruel! Se fosse depender de uma chinelada do Valter, dona Alzira estaria até hoje em cima da cadeira. O Valter não faz nada. É um inútil. Incapaz de consertar uma tomada, de trocar uma lâmpada, de ir até a área do apartamento para ver se tem ladrão. Leva as coisas com a barriga – e que barriga, Jesus amado! E pensar que ela sonhou tanto com seu príncipe encantado. Príncipe? Cocheiro seria pouco para definir esse brutamontes. E a humilhação de depender dele financeiramente! Se ao menos o Valter fosse, como alguns maridos, um caixa eletrônico carinhoso… Carinhoso, o Valter? Essa é boa…

De forma que ela foi se conformando, fazer o quê? Não é de desejar a morte dos outros, mas se pega pensando na hipótese de ficar viúva. As pessoas morrem! Ela própria vai acabar velhinha, sem autonomia. Tenta se acostumar com a ideia de acabar num asilo: melhor que casa de filho, onde criança liga a TV alto. Já admite a hipótese, antes intolerável, de, viúva, ir aos bailes da terceira idade. Só peço uma coisa, condiciona: não me façam dançar!

Sem chegar ao descalabro das moças de hoje, dona Alzira é capaz de iniciativas. Ia lá se entregar, se conformar com um papel de vítima? A filha tanto falou que dona Alzira, de cara amarrada, concordou em entrar numa terapia. De grupo. Voltou escandalizada: nunca mais! Um tem sonhos eróticos com a mãe; outro está desconfiado de que é efeminado; vários têm depressão – e isso dona Alzira não admite: sou contra a depressão!, costuma declarar.

Já que não pôde contar com o marido, o jeito foi encarar a realidade. Com paciência e determinação, virtudes cristãs. E, claro, um toque de criatividade muito seu. De uns tempos para cá, dona Alzira volta e meia compra um quadro na feira de artesanato, paisagem, choupana de sapé, ipês floridos, regato, campina verdejante, belezas simples assim. Quando sente que está faltando alguma coisa, não hesita: com sua habilidade de melhor aluna de desenho no colégio, dona Alzira trata de acrescentar alguma coisa às paisagens. Uns boizinhos na campina verdejante. Uma pipa a esvoaçar no céu. Um sol radioso entre nuvens.

Quando tudo parecia ir bem, vem essa notícia de que vai acabar a escrita de mão. Onde essa gente está com cabeça? É o fim da caligrafia, da letra caprichada nos envelopes de convite de casamento. Se fossem acabar apenas com os garranchos… Meu Deus, o que vai ser dos cadernos de receitas?

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