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Ela é a Presidenta

Posted by Liberdade Aqui! em 09/01/2011

Por Lola Aronovich, em seu blog

MINHA PRESIDENTA, O DEBATE

Nesta semana que foi a primeira do novo governo, muito se discutiu sobre o uso do termo presidenta. Alberto Dines, que desde 2005 não fala mais coisa com coisa, escreveu um artigo no Observatório da Imprensa. Entre outras asneiras, ele declara que o feminismo conseguiu tudo que queria (“esquecidas as lutas das sufragistas e feministas, finalmente alcançada a igualdade dos gêneros, a presidenta da República deixa de ter um sucessor – Michel Temer jamais poderá ser designado vice-presidenta”), institui um cargo vitalício para Dilma (a partir de agora, todos os eleitos, sejam mulheres ou homens, ocuparão sempre o cargo de presidenta, a julgar pelo exemplo do vice), e aponta que “o eleitor votou em Dilma para presidente do Brasil e não para presidenta”. Opa, é verdade! Impeachment já! O eleitor jamais teria optado por Dilma se soubesse que, oh infamia!, ela iria querer ser chamada de presidenta. Porque isso vai contra a Constituição! E, se a gente fuçar bem, na bíblia deve haver uma condenação ao termo!

Falando sério agora. Pelo que vejo, as discussões sobrepresidenta se dividem nessas categorias:
– É tudo uma estupidez, é só uma palavrinha, presidente ou presidenta, tanto faz, o importante é que Dilma faça um bom governo, ou (dependendo em quem a pessoa votou), essa discussão é só pra encobrir o desastre absoluto que foi essa primeira semana, agora sim o Brasil chegou ao fundo do poço!
– A forma presidenta está errada e ponto final. Quem diz isso passa o resto dos seus dias colecionando palavras que terminam em “e” pra provar como presidenta é ridículo: afinal, não se diz estudanta, videnta, gerenta, inteligenta, etc etc (são muitas as palavras terminadas em “e”; diversão pra esse pessoal não falta). Eles engasgam um pouquinho ao chegar em governante, já quegovernanta tem um sentido totalmente diferente, que é uma função doméstica, exercida apenas por mulheres. Nesses momentos difíceis, essas pessoas costumam gritar que a língua é neutra, neu-tra, entendeu?, que é uma coisa natural do homem, quer dizer, do ser humano, e que só as malditas feminazis pra prestarem tanta atenção numa coisa tão imparcial como a linguagem do dia a dia.
– A tentativa de implantar o termo presidenta é uma forma das feministas dominarem o mundo. Ha ha, eu me divirto! Mas, quanto a isso, o linguista Sírio Possenti, que não gostava de presidenta e agora defende o termo, já dizia em dezembro: “Feminismo exagerado? Tem sido outro argumento. Apesar da antiguidade do Aulete [que registra a palavra presidenta desde 1974], talvez valesse a pena chamar o velho Sigmund e perguntar-lhe se não há, escondida, alguma resistência às mulheres no comando, ou a uma mulher em particular. Pode ser tucanismo enrustido, pode ser ojeriza da política como tem sido feita. Razões nobres. Mas que se culpem os sons! Aposto que os que acham o som de ‘presidenta’ horrível não têm nada contra ‘magenta’, ‘setenta’, ‘sedenta’ ou mesmo ‘purulenta’ e ‘polenta’”.
– Tanto presidenta quanto presidente estão no dicionário e, se está no dicionário, é a palavra de deus. Portanto, pode usar qualquer uma. Quanto a esse ponto, Sírio diz num ótimo artigo desta semana em que responde a DInes: “Em relação ao apelo a gramáticas e dicionários, as atitudes dos ‘expertos’ são bastante engraçadas. O comportamento típico é o seguinte: quando não gostam das formas que os dicionários e gramáticas abonam, dizem que gramáticas e dicionários não são as únicas autoridades. Mas, quando as gramáticas e dicionários concordam com seu gosto, esses documentos são santificados”.
– É presidenta, e quem não chamar Dilma assim é um troglodita machista e/ou reaça. A presidenta da Fundação José Saramago, e também sua viúva, Pilar, disse em 2008, “Só os ignorantes me chamam presidente”. Acho que não é por aí. Creio que alguém pode preferir o termo presidente pra falar de Dilma, a menos que, pra justiticar esse tratamento, a pessoa insista que a língua é neutra, que a forma presidenta é errada e acabou, quepresidenta é um excesso das feministas enlouquecidas. Falou qualquer uma dessas besteiras? É ignorante (e ignorante não como insulto, mas no sentido de não saber do que está falando e você precisa se informar mais, meu filho).

Na minha modesta opinião, quem escreveu o melhor e mais completo artigo sobre o assunto foi Diego Ramirez, vulgo Jiquilin, um jovem linguista. E isso há mais de um mês. Ele mostra que, em vários vocábulos, a inflexão masculina ou feminina consta na mesma palavra. Mas, no caso de palavras terminadas em “e”, o que define se é masculino ou feminino está fora: “É que gênero, neste caso, aparece além da palavra: ‘o valente’, ‘a valentona’, ‘o cara valente’, ‘a mulher valente’. Nestas orações, realmente não houve nenhuma mudança morfológica no nome ‘valente’. Contudo, o gênero estava marcado de uma outra forma morfológica: no artigo!” Por isso,pra salientar que agora a presidência é exercida por uma mulher, justifica-se usar presidenta.
E, como disse Sírio, não é por poder dizer presidenta que vamos dizer diferenta. Ô gente, isso é uma grande viagem! Não é porque algumas palavras masculinas terminam em “o” que temos que colocar “o” em todas as palavras masculinas. É um lápis, certo? Não um lápiso! Não é futebolo. Podemos usar presidentaDilma sem medo de ser feliz, sem ter que modificar todas as palavras terminadas em “e” ou toda a língua portuguesa.
Outra que escreveu um post divertido pra responder o Dines foi a Bárbara. Ela lembra que chamar Dilma de presidenta tem um motivo: “está aí pra marcar o fato de que o cargo de Presidente da República é agora ocupado por uma mulher. UmA. Mulher. A gramática da língua portuguesa é toda machista, nunca vi nenhum desses paladinos da verdade e da justiça reclamarem. Agora que só essa palavrinha foi proferida pra marcar uma conquista das mulheres nesse país, f*deu. Crime constitucional!”
Pessoalmente, não sou a maior adoradora do termo presidenta. Causa desconforto, e fica fácil pros reacinhas adaptarem pra presidanta. Mas seria estúpido eu extinguir um termo pelo uso que adversários farão dele. E, na realidade, o termo presidenta causa desconforto porque é incomum. E por que é incomum? Ahn, porque nunca tivemos uma mulher eleita pra exercer a presidência? Como diz Sírio, “A novidade não é a forma feminina. A novidade é uma mulher no cargo.” E ele aponta que, quando o primeiro operário foi eleito, causou-se a mesma estranheza: como tratá-lo, por vocêou por senhor? (hoje, graças aos céus, senhor está quase aposentado, ou, como já dizia um homem de meia idade pra quem perguntei, quando eu era criança, “O senhor tem as horas?”: “O Senhor está no céu; são dez horas”).
Pra mim, a questão é essa: Dilma foi eleita (não adianta espernear, você aí à direita), colocou placa no seu carro oficial de Presidenta da República, na sua posse falou em presidenta várias vezes, ou seja, está pedindo pra ser chamada de presidenta (e o fato de praticamente toda a velha mídia definir que vai tratá-la comopresidente, e não como ela quer ser chamada, já demonstra seu posicionamento. Esquerda no poder? Somos contra!). E então, se não faz tanta diferença assim chamá-la de presidenta, dá pra ser? Claro que não! Quem ela pensa que é? Uma mulher querendo definir a forma como será tratada, onde já se viu? Daqui a pouco ela vai dizer que o corpo também é dela! A gente dá a mão e ela já quer o braço. Mais uns dias e ela vai querer até mandar no país!

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4 Respostas to “Ela é a Presidenta”

  1. Gabi said

    Na verdade, equivoca-se quem pensa que o uso da palavra presidenta tem a ver com feminismo. O fato é que o movimento feminista vem defendendo, *há décadas*, sempre que possível, a neutralidade de gênero para profissões, pois ninguém, homem ou mulher, deveria pedir licança a outro gênero para exercer profissão alguma. É por isso que, em inglês, hoje se diz “chairperson” ou simplesmente “chair” no lugar de “chairman” e “flying attendant” em lugar de “air steawardess”, para citar alguns dos muitos exemplos. No francês, também se procura nomes neutros sempre que possível e – quando impossível – aí sim a feminização ou masculinização, dependendo do caso. Infelizmente, em português e espanhol essa discussão ainda está muito atrasada… Assim, ao contrário do que muita gente pensa, a palavra “presidenta” não é só politicamente incorreta, ela também é menos democrática, pois em uma democracia com passagem periódica de poder, uma pessoa – mulher ou homem – está presidente. Aliais, no Brasil – acertadamente – já houve muitas presidentes. Uma, inclusive, foi Presidente da Academia Brasileira de Letras.

    Assim, presidenta não é uma afirmação feminista. É um passo para trás nos movimentos sociais. Dilma provavelmente foi mal assessorada por alguém que confundiu feminismo com femismo.

    • Prof. Leandro said

      Marcos Bagno: É presidenta, sim!

      Marcos Bagno

      O Brasil ainda está longe da feminização da lín-gua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma “presidenta”, que assim seja chamada.

      Se uma mulher e seu cachorro estão atraves-sando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino. Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que a marca desse predomínio masculino tenha sido inscrustada na gramática das línguas.

      Somente no século 20 as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar. Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França. Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.

      Agora que temos uma mulher na Presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada. Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como CartaCapital, decide usar única e exclusivamente presidente. E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.

      Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na Presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta. O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?

      Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas ideias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse. Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples – e no lugar de um –a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública.

      Marcos Bagno é professor de Linguística na Universidade de Brasília.

      • Gabi said

        Oi Marcos,

        Não estou defendendo uma aliança política ou outra. Apenas esclareço o que a maior parte do movimento feminista pensa – há décadas – sobre a utilização dos gêneros nas denominações das profissões. Essa discussão vai bem além da dicionarização de uma palavra ou não, ou sua utilização em língua espanhola. Sim, a feminização das profissões faz parte do avanço do feminismo nas línguas latinas (doutor/doutora, procurador/procuradora…). Mas mesmo no francês, onde esse processo foi mais discutido, se procurou da melhor forma possível manter, ou até mesmo criar, denominações comuns-de-dois para definir as profissões, pela razão que apontei acima. No inglês, onde o movimento feminista é muito forte, essa idéia é senso comum.

        Enfim, como já foi dito várias vezes, as duas formas estão certas, mas de um ponto de vista da teoria feminista, presidente é mais desejável, pois dá a idéia de neutralidade de gênero para o exercício da profissão.

        Mas o importante mesmo é que a nova mandatária faça um bom governo. Vamos torcer por isso, independentemente do nome que damos ao cargo.

        Paz.

      • Gabi said

        Aliais, engraçado você ter mencionado a Argentina e o Chile, pois lá também o termo causou confusão. Bachelet queria ser chamada de “presidente”, e a mídia insistiu em chamar ela de “presidenta”. Na Argentina, a Cristina pediu justamente o contrário: chamavam ela de presidente, pois esse era o uso local, mas ela insistia que queria ser “presidenta”, o que acabou sendo incorporado pois ela se recusou completamente a ser chamada de “presidente”.

        Como você mesmo mencionou – como bom linguista – quem faz a língua são as pessoas a utilizam. Acho que, no final, o povo vai decidir o que prefere, o que talvez seja o caminho mais sábio e democrático. Eu, pessoalmente, fico com o feminismo e com a Lya Luft.

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