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Posted by Liberdade Aqui! em 21/11/2010

Do blog Maria Frô

José Vicente, um reitor contra o preconceito

Aos 51 anos, o advogado e sociólogo que começou como boia-fria no interior hoje chefia a Zumbi dos Palmares, única universidade de maioria negra no País

Por: Edison Veiga em O Estado de S.Paulo21/11/2010

A cena se repete com frequência. Ele acaba de almoçar em um restaurante bacana de São Paulo e está na porta, aguardando o manobrista trazer seu carro. Um novo cliente chega, para o carro e vem em sua direção, entregando-lhe a chave:

Paulo Pinto/AE

Paulo Pinto/AE‘Quilombo’. Vicente comanda única faculdade brasileira onde o negro é protagonista: 90% dos alunos e 55% dos professores têm ascendência afro

“Não, não sou manobrista”, responde, entre revoltado e constrangido.

“Sou um cliente como você.”

Geralmente o dono da chave fica sem graça, aquele sorriso amarelo. “No fundo, sei que ele é um inocente. Vítima do contexto social”, afirma José Vicente, de 51 anos, advogado, sociólogo, mestre em Administração, doutorando em Educação e reitor da Faculdade da Cidadania Zumbi dos Palmares. José Vicente é negro.

“Sejam bem-vindos ao quilombo de Zumbi.” É o que está escrito logo na entrada do prédio da faculdade com sede no Clube de Regatas Tietê, na Marginal de mesmo nome, bairro da Armênia. Quilombo? A alusão às comunidades criadas por ex-escravos e outros excluídos não é por acaso. Trata-se da única faculdade brasileira com maioria negra: 90% dos 1,8 mil alunos se declaram negros – pelo regulamento da instituição, a cota reservada ao grupo é de 50%, pelo menos. Entre o corpo docente, a ascendência africana também é predominante. “Dos 78 professores, 55% são negros”, afirma Vicente. “Na USP, há 5,4 mil professores. Apenas cinco negros.” De acordo com o IBGE, 34,11% da população paulista é negra.

A Zumbi dos Palmares nasceu de uma utopia. Nos anos 1990, quando Vicente ganhava a vida como advogado criminalista, ele encabeçava um grupo de pessoas que conseguiam bolsas de estudos para negros em universidades particulares. Em 1997, a coisa ficou séria e foi fundada a Afrobras, ONG que existe até hoje e administra a faculdade. Na época, o sistema de bolsas coordenado pelo grupo envolvia dez universidades, beneficiando 1,2 mil jovens negros. “Dez anos antes de se discutir a política de cotas no Brasil, já garantíamos uma cota, do nosso jeito.” José Vicente é meio assim mesmo: se não vai de um jeito, vai de outro. Até dar certo.

Aí que a coisa foi amadurecendo. A vontade era ter uma faculdade de gênero, como há 117 nos Estados Unidos. “Precisávamos de um projeto. E isso custa caro. A (Universidade) Metodista nos ajudou.” O passo seguinte seria o Ministério da Educação aprovar. Precisava marcar uma reunião com o então ministro Paulo Renato Souza (era ano 2000). Descobriu que o médico infectologista David Uip era próximo dele. Bom, Vicente conhecia a irmã do médico. Ligou os pontos. “Ele falou que só toparia ajudar se conseguíssemos convencê-lo do projeto”, lembra o reitor.

“Tenho uma ótima recordação do episódio”, diz Uip. “Minha principal dúvida era se, ao fazer uma universidade para negros, não estaríamos aumentando o preconceito contra os próprios negros. Quando Vicente me informou que a possibilidade de acesso dos negros ao Ensino Superior era de somente 2%, não hesitei em tentar ajudá-lo.”

A reunião foi marcada. “Entusiasmei-me muito, mas vi que ele não tinha experiência nenhuma. Então, destaquei uma equipe do MEC para auxiliar a colocar o projeto em prática”, recorda-se o ex-ministro, hoje secretário da Educação de São Paulo. Em 2004, após a colaboração de muitas pessoas e empresas, começavam as aulas na Zumbi dos Palmares. Hoje são oferecidos cinco cursos (Administração, Direito, Publicidade, Pedagogia e Tecnologia de Transportes Terrestres), com mensalidades que vão de R$ 260 a R$ 315. E bolsas, muitas bolsas. Patrocinadas por empresas.

Infância. Não foi fácil para José Vicente chegar onde chegou. Filho caçula de boias-frias, ele nasceu e cresceu no Morro do Querosene, bairro pobre de Marília, no interior paulista. “Éramos seis irmãos e nossa mesa só tinha três cadeiras. Casa de madeira. Chuveiro era um balde furado”, afirma ele.

O pai morreu quando ele tinha 1 ano – “nem foto tinha, não sei como era o rosto dele”. Foi criado sob pés de café da roça, enquanto mãe e irmãos trabalhavam. Com 7 anos, começou a ajudar também. “Já estava fortinho, né?” Também trabalhou como engraxate, vendedor ambulante, pintor de paredes, fez de tudo um pouco. Na adolescência, entrou para uma banda marcial da cidade e descobriu-se poeta e compositor “para xavecar as menininhas”.

Aos 21 anos, tendo cursado somente até o 2.º ano do Ensino Médio, virou soldado da Polícia Militar e mudou-se para São Paulo. “Tive um choque. Eu mal sabia segurar o revólver e estava caçando bandido. Caramba, entrei em crise, pensei em me jogar do viaduto.” Botou foi a cabeça no lugar, terminou os estudos e foi estudar Direito. Depois, Sociologia. Depois, você já sabe: começou a semear o sonho da Zumbi dos Palmares. / COLABOROU ANA BIZZOTTO

O QUE ELES DIZEM

“A faculdade é o resultado da obstinação de José Vicente. Confesso que, à época, achava difícil eles conseguirem superar todas as etapas. Mas o resultado é absolutamente surpreendente”

Paulo Renato Souza
SECRETÁRIO ESTADUAL DA EDUCAÇÃO

“Ele é destemido, perseverante, articulado e nunca desiste. É um grande exemplo”

David Uip
MÉDICO INFECTOLOGISTA

“O Troféu Raça Negra é um grande estímulo para os artistas negros e, vindo da própria comunidade negra, é altamente expressivo”

Altay Veloso
MÚSICO, PREMIADO EM 2008

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